Conteúdo verificado
terça-feira, 27 de maio de 2025 às 10:19 GMT+0

Reconhecimento facial no Brasil: Erros, racismo e falta de transparência em sistemas de vigilância

O uso de tecnologias de reconhecimento facial no Brasil tem se expandido rapidamente, mas sem transparência, regulamentação clara ou comprovação de eficácia. Um relatório recente do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC) e da Defensoria Pública da União (DPU) revela que a maioria desses sistemas opera sem controle social adequado, cometendo erros graves e reforçando desigualdades.

A falta de transparência e os desafios na obtenção de informações:

  • As instituições de segurança pública brasileiras têm histórico de resistência à prestação de contas, mantendo práticas herdadas de períodos autoritários.

  • Mesmo com a participação da DPU, muitos estados ignoraram pedidos de informação ou alegaram sigilo, violando o direito constitucional à publicidade.

  • Quatro governos (Amazonas, Maranhão, Paraíba e Sergipe) sequer responderam aos ofícios, evidenciando a cultura de opacidade.

A expansão descontrolada do reconhecimento facial:

  • O projeto O Panóptico, do CESeC, monitora 376 sistemas ativos no país, capazes de vigiar cerca de 83 milhões de pessoas (quase 40% da população).

  • Investimentos ultrapassam R$ 160 milhões, com a Bahia liderando (R$ 66 milhões em um único contrato).

  • Não há relatórios públicos sobre falsos positivos, erros ou impactos reais na redução da criminalidade.

Os riscos e abusos já documentados:

  • O programa Smart Sampa, em São Paulo, ilustra os perigos: Uma gestante foi erroneamente identificada como criminosa, sofrendo um parto prematuro devido ao estresse. Um idoso voluntário passou 10 horas em uma delegacia para provar sua inocência após um erro do sistema.

  • Estudos mostram que algoritmos têm taxas de erro até 100 vezes maiores para pessoas não brancas. Em 2019, mais de 90% dos presos por engano eram negros.

  • Câmeras em unidades de saúde criam barreiras ao acesso, especialmente para moradores de periferias, violando o direito constitucional à saúde.

Os problemas estruturais e a falta de regulamentação:

  • Ausência de padrões: Alguns estados exigem múltiplas verificações antes de abordagens, enquanto outros agem com base em alertas automáticos, aumentando riscos de injustiças.

  • Terceirização sem controle: Empresas como a Clearview AI (banida em vários países) são contratadas sem fiscalização, violando a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).

  • Prioridades distorcidas: Enquanto milhões são gastos em vigilância, serviços essenciais como saúde e saneamento enfrentam cortes.

Recomendações e caminhos para mudança:

O relatório propõe medidas urgentes, incluindo:

  • Suspender novas compras até que uma lei federal regulamente o uso.
  • Exigir transparência: Publicação de contratos, mapas de câmeras e auditorias independentes.
  • Padronizar protocolos para evitar abordagens arbitrárias.
  • Criar conselhos com participação da sociedade civil, Defensoria e pesquisadores.

A expansão do reconhecimento facial no Brasil ocorre sem debates públicos, avaliações de impacto ou mecanismos de reparação para vítimas de erros. Enquanto governos investem em tecnologias falhas e discriminatórias, faltam recursos para investigar crimes reais ou melhorar serviços básicos. A pergunta que fica é: quem realmente se beneficia com essa vigilância em massa? Até que haja respostas claras, é essencial priorizar políticas públicas que protejam direitos fundamentais, especialmente das populações mais vulneráveis.

Estão lendo agora

Assento de vaso sanitário transmite doenças? Especialistas derrubam os mitos e revelam os verdadeiros riscosA cena é quase universal: entrar em um banheiro público e ser recebido por uma sensação imediata de "eca". A visão de re...
Resistência negra: O Ramadã, a escrita árabe e a história não contada da "Revolta dos Malês" - A maior rebelião de escravizados do BrasilImagine Salvador em 1835. A antiga capital do Brasil era uma cidade pulsante, onde os sons do português se misturavam co...
De dominatrix a CEO de Tech: Pornografia de vingança - Conheça a tecnologia que rastreia fotos compartilhadas sem consentimentoMadelaine Thomas não se encaixa no perfil convencional de uma fundadora de startup. Ex-dominatrix profissional de Monmou...
Parcerias Digitais: Instagram revela Marketplace de criadores no BrasilNo dia 23 de fevereiro de 2024, o Instagram anunciou o lançamento do Marketplace de Criadores de Conteúdo no Brasil, pro...
Por que a FIVB acabou com a Liga Mundial? O impacto da Liga das Nações no Vôlei globalEm 2017, a Federação Internacional de Voleibol (FIVB) anunciou o fim de duas competições tradicionais: a Liga Mundial (m...
"Extermínio: A Evolução" - Onde assistir aos filmes antes do novo capítulo da saga apocalíptica? ConfiraA franquia Extermínio (28 Days Later e 28 Weeks Later) é um marco do cinema de horror pós-apocalíptico, explorando os ef...
Ouro negro em disputa: O impacto real do plano de Trump nos preços globais do petróleo da Venezuela para o mundoCom a recente captura de Nicolás Maduro e a afirmação de que os Estados Unidos assumirão a gestão da transição no país, ...
Ciência contra o "chulé": A pesquisa que "cheira" a inovaçãoUm problema universalmente embaraçoso: O mau cheiro dos sapatos encontrou uma resposta científica séria. Diante do const...
5 filmes imperdíveis parecidos com Interestelar para assistir no streaming para fãs de ficção científica - Lista atualizadaO filme Interestelar, lançado em 2014 e dirigido por Christopher Nolan, permanece como um dos maiores marcos do cinema d...
Como identificar se você está com Gripe, COVID, VSR, Resfriado ou outra doença respiratóriaQuando você começa a sentir sintomas como dor de garganta, nariz congestionado, febre e cansaço, pode ser difícil distin...
Fluência em Inglês com o Duolingo: É realmente possível?O Duolingo, uma plataforma de aprendizado de idiomas amplamente popular, oferece uma abordagem única para aprender inglê...
O truque do gelo na nuca para ansiedade: Verdade científica ou placebo perigoso?A técnica de usar gelo na nuca para acalmar crises de ansiedade viralizou na internet. Mas será que funciona mesmo? E po...