Bitcoin em queda: Por que a moeda caiu ao menor nível desde a posse de Trump?
O mercado de criptoativos vive um momento de forte correção, e o Bitcoin, que outrora surfava na onda de otimismo político, agora enfrenta o seu teste mais rigoroso desde a mudança de comando na Casa Branca. Mesmo com um governo que se autointitula o maior aliado das moedas digitais na história, o preço do ativo recuou para os níveis de 15 meses atrás, acendendo um alerta entre investidores e analistas.
O fator Federal Reserve: A nomeação de Kevin Warsh
O principal gatilho para a queda recente não veio de leis de criptografia, mas sim da política monetária tradicional. A nomeação de Kevin Warsh por Donald Trump para a presidência do Federal Reserve (o Banco Central dos EUA) mudou as expectativas de mercado.
- Juros altos: Warsh é visto como um perfil "hawkish" (agressivo), o que sugere que as taxas de juros podem permanecer elevadas por mais tempo para conter a inflação.
- Fuga do risco: Quando os juros estão altos, investidores tendem a retirar dinheiro de ativos voláteis como o Bitcoin para buscar segurança em títulos do governo.
- Contradição política: Existe uma ironia no fato de uma indicação do próprio Trump que prometeu impulsionar o setor, ser o estopim para a desvalorização do ativo.
A "capital das criptomoedas" e o conflito de interesses
Desde que assumiu o poder em janeiro de 2025, o governo Trump tomou medidas drásticas para desregulamentar o setor. A SEC (Comissão de Valores Mobiliários) reduziu investigações e leis federais foram criadas para dar respaldo ao setor. No entanto, o mercado parece estar reagindo ao excesso de proximidade política.
- Envolvimento pessoal: O presidente mantém participações bilionárias em criptoativos e lucros diretos através da World Liberty Financial.
- Ceticismo dos investidores: Analistas sugerem que o entusiasmo inicial com a "agenda pró-cripto" está sendo substituído por uma cautela sobre o uso do setor para ganhos políticos e pessoais, o que gera instabilidade institucional.
- Pressão democrata: No Senado, a oposição tem questionado a transparência dessas operações, aumentando o ruído político em torno da moeda.
O amadurecimento doloroso: De especulação a realidade
O Bitcoin está deixando de ser apenas um "bilhete de loteria digital" para tentar encontrar seu lugar como um ativo financeiro estabelecido. Esse processo de transição, segundo o Deutsche Bank, é naturalmente volátil.
- Exaustão do varejo: O interesse dos investidores tradicionais parece estar minguando após o Bitcoin não sustentar o recorde de
US$ 122 milatingido no final de 2024. - O papel do dólar: Recentemente, o Bitcoin passou a seguir mais de perto as flutuações do dólar americano. Com a queda da moeda americana para o menor nível em quatro anos, o Bitcoin não conseguiu se descolar dessa tendência negativa.
- Correção em massa: O pessimismo não é exclusivo do Bitcoin. Outras moedas como Ethereum e Solana registraram quedas ainda mais acentuadas, superiores a 30% apenas no início de 2026.
Perspectivas e o "chão" do Mercado
- Especialistas da Abra Capital Management acreditam que esta é apenas mais uma das muitas crises cíclicas do Bitcoin e que a recuperação é provável, dado o histórico de resiliência da tecnologia. No entanto, consultorias como a Stifel são mais pessimistas, projetando que o ativo ainda pode buscar suportes na casa dos
US$ 38 milse a correlação com o dólar e as incertezas geopolíticas persistirem.
A queda do Bitcoin para o patamar de US$ 65 mil em fevereiro de 2026 revela que o apoio político, por mais explícito que seja, não é capaz de blindar um ativo contra as leis da macroeconomia. O mercado está passando por um choque de realidade: o otimismo das promessas eleitorais deu lugar à dureza das taxas de juros e à cautela institucional. O futuro da criptomoeda agora depende menos de ordens executivas e mais de sua capacidade de provar utilidade real em um cenário financeiro global cada vez mais complexo.
