O rombo do Banco Master sobrou para você? Entenda como o dinheiro público cobrirá o buraco bilionário
A quebra do Banco Master e os desdobramentos da Operação Compliance Zero deixaram de ser apenas uma conversa tensa nos escritórios da Faria Lima para se tornarem um problema real no bolso do cidadão comum. Embora o sistema bancário tente se vender como um ecossistema isolado, a realidade é que, quando o "seguro" não dá conta, a conta acaba sobrando para quem paga impostos.
O "canto da sereia" dos juros altos
- O Banco Master construiu sua ascensão rápida oferecendo taxas de retorno significativamente acima da média do mercado: Para o investidor comum, até
R$ 250 mil, havia o conforto do Fundo Garantidor de Crédito (FGC). No entanto, o banco também mirou nos Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS), os fundos que garantem a aposentadoria de servidores públicos estaduais e municipais. - Diferente do investidor pessoa física, esses fundos aplicaram quantias massivas em títulos chamados Letras Financeiras: O problema? Esses títulos não possuem garantia do FGC. Agora que o banco foi liquidado e seu controlador, Daniel Vorcaro, enfrenta investigações, o risco de que esse dinheiro nunca retorne é altíssimo.
A socialização do prejuízo: Quem paga a conta?
Quando um fundo de pensão como o Rioprevidência (Rio de Janeiro), a Amprev (Amapá) ou fundos do Amazonas perdem quase R$ 1,5 bilhão em investimentos "duvidosos", o rombo não desaparece por mágica. Ele precisa ser coberto de duas formas, e nenhuma delas é agradável:
1. Aumento de alíquota: Servidores ativos e aposentados podem ser obrigados a contribuir com uma porcentagem maior de seus salários para tapar o buraco.
2. Aporte do tesouro: O Estado retira dinheiro do orçamento que seria destinado a hospitais, escolas ou segurança para garantir que as pensões continuem sendo pagas.
É o que especialistas chamam de "socialização das perdas": os lucros foram visados pela gestão privada ou política do fundo, mas o prejuízo é dividido por toda a sociedade.
O caso BRB e a injeção de R$ 5,5 bilhões
- A situação se estende ao Banco de Brasília (BRB): Sob investigação está a compra de carteiras de crédito do Master pelo BRB, que totalizam
R$ 12,2 bilhões. Suspeita-se que parte dessas dívidas sejam "fictícias" ou supervalorizadas. - Para evitar um colapso em sua estrutura, o BRB pode precisar de um aporte de capital de até R$ 5,5 bilhões: Como o Governo do Distrito Federal é o acionista controlador, esse recurso sairia diretamente dos cofres públicos. Em termos práticos, é o dinheiro do contribuinte brasiliense sendo usado para estabilizar uma instituição que se envolveu em negócios de alto risco com o banco liquidado.
O risco de repetição da crise de 2016
- A preocupação não é meramente teórica: No Rio de Janeiro, o trauma de 2016 quando aposentados ficaram meses sem receber e dependeram de doações de cestas básicas ainda está fresco na memória.
- Investigação da Polícia Federal: Foco em entender o que motivou gestores públicos a alocarem recursos tão expressivos em uma instituição que já apresentava sinais de alerta. A prisão de ex-gestores reforça a tese de que a escolha pelos ativos do Master pode ter ignorado critérios técnicos básicos de mitigação de risco.
A conta que chega para o contribuinte
- O caso do Banco Master é um lembrete amargo de que, no sistema financeiro, não existe almoço grátis. Quando uma instituição oferece retornos mirabolantes, o risco está escondido em algum lugar e, no Brasil, esse lugar costuma ser o orçamento público.
Enquanto as defesas negam irregularidades e o processo judicial se arrasta, o contribuinte fica na expectativa de que a fiscalização do Banco Central e as instâncias de controle dos estados consigam reaver parte dos ativos antes que o corte nos serviços essenciais se torne inevitável.
