De prisioneira a símbolo nacional: A história real por trás de "Belén": Filme que a Argentina enviou ao Oscar 2026
O cinema argentino reafirma sua força global com a indicação de Belén para representar o país no Oscar e no Goya em 2026. O longa, que já integra a seleta shortlist de Melhor Filme Internacional, não é apenas uma peça de ficção; é o retrato fiel de uma ferida aberta na sociedade argentina que impulsionou mudanças legislativas históricas.
Escrito, dirigido e protagonizado pela renomada Dolores Fonzi, o filme adapta a história real de uma jovem que se tornou o símbolo da luta pela legalização do aborto. Lançado em novembro de 2025 e disponível no Prime Video, a obra utiliza a vulnerabilidade humana para questionar as falhas estruturais de um sistema que criminaliza a pobreza e o gênero.
O caso que abalou as estruturas de Tucumán
- Em 2014, a jovem Belén (pseudônimo utilizado para proteger sua identidade) procurou um hospital público em Tucumán com uma hemorragia severa. O que deveria ser um atendimento de emergência transformou-se em um pesadelo jurídico: após sofrer um aborto espontâneo, ela foi acusada de assassinato e condenada a oito anos de prisão por "homicídio agravado pelo vínculo".
- A condenação baseou-se em depoimentos de profissionais de saúde que, violando o sigilo médico, atuaram como testemunhas de acusação. O drama de Belén expôs uma realidade sombria: a lei, muitas vezes, era usada como ferramenta de controle e punição, mesmo em casos de emergência médica evidente.
A virada jurídica e o papel de Soledad Deza
A história tomou um novo rumo quando a advogada Soledad Deza, especialista em bioética e mestre em gênero, assumiu o caso no dia da condenação. Deza identificou erros processuais graves que haviam sido ignorados pelas instâncias anteriores:
- Violação de sigilo: Médicos e enfermeiros quebraram a ética profissional para denunciar a paciente.
- Provas ignoradas: O prontuário médico de Belén indicava, desde a primeira página, um "aborto espontâneo incompleto", mas essa prova foi sumariamente descartada pelo tribunal.
- Ausência de DNA: Não havia exames genéticos que vinculassem o feto encontrado no hospital à jovem acusada.
Ao perceber que a técnica jurídica não seria suficiente contra um sistema conservador, Deza levou o caso à opinião pública, transformando a defesa de uma mulher na causa de uma nação.
A "Maré Verde" e a força da mobilização coletiva
- O caso Belén foi o combustível para a mobilização massiva de mulheres nas ruas da Argentina: A pressão social, somada ao apoio de órgãos internacionais como a ONU e a Anistia Internacional, forçou o sistema judiciário a revisar a sentença. Belén foi libertada em 2017, após dois anos de prisão injusta.
- Esse episódio foi fundamental para desmistificar a ideia de que a criminalização do aborto era meramente simbólica: Ele provou que mulheres pobres eram alvos diretos do Estado, o que pavimentou o caminho para a aprovação da Lei de Interrupção Voluntária da Gravidez (IVE) em 2020, um marco histórico para os direitos reprodutivos na América Latina.
Desafios e retrocessos no cenário atual
- Apesar das conquistas, o filme chega às telas em um momento de tensão política na Argentina: Sob a gestão de Javier Milei, o país enfrenta ofensivas contra direitos estabelecidos. A advogada Soledad Deza aponta que o fechamento do Ministério das Mulheres e o corte de verbas para programas de saúde reprodutiva criam um clima de insegurança jurídica.
- A narrativa oficial atual, que volta a classificar o aborto como "homicídio": Isso gera confusão e dificulta o acesso à saúde, especialmente para quem não possui recursos financeiros. O filme, portanto, serve como um lembrete urgente de que direitos conquistados precisam de vigilância constante.
Disponível no Prime Vídeo
Um recado de esperança e humanidade
A jornada de Belén, agora imortalizada nas telas, encerra um ciclo de dor para a jovem, que hoje vive em liberdade, mas deixa um alerta permanente para o mundo. Ao humanizar a figura da advogada e da vítima, o filme retira o debate do campo abstrato da ideologia e o coloca onde ele realmente pertence: na vida real, na saúde pública e na dignidade humana. Como define a própria Belén, o objetivo de expor sua história é garantir que nenhuma outra mulher precise passar pelo que ela passou.
