Tráfico internacional: MPF investiga como Jeffrey Epstein operava rede no Rio Grande do Norte e SP
O Ministério Público Federal (MPF) abriu um procedimento sigiloso para investigar possíveis tentativas de aliciamento de mulheres brasileiras relacionadas ao criminoso sexual Jeffrey Epstein. A decisão foi tomada após reportagem da BBC News Brasil revelar trocas de mensagens, pagamentos e indícios de intermediação envolvendo brasileiras e viagens ao exterior.
A investigação busca esclarecer se houve prática de tráfico internacional de pessoas, se existia uma rede de recrutamento no Brasil e qual era o grau de vulnerabilidade das mulheres envolvidas. Segundo o MPF, a participação de possíveis vítimas será fundamental para o avanço do caso.
O que motivou a investigação
O procedimento foi instaurado na Unidade Nacional de Enfrentamento ao Tráfico Internacional de Pessoas e ao Contrabando de Migrantes, órgão especializado do MPF.
A apuração teve como ponto de partida:
- Troca de e-mails entre Epstein e uma brasileira, entre 2009 e 2013.
- Referências a uma jovem de Natal (RN), descrita como de “família simples”.
- Organização de passaporte e viagem aos Estados Unidos.
- Pedido explícito de fotos em biquíni ou lingerie.
- Indícios de ajuda financeira em troca de contatos e imagens de outras mulheres.
Não há confirmação, nas mensagens divulgadas, de que a viagem tenha ocorrido nem a idade das mulheres citadas.
Pagamentos, favores e intermediação
As mensagens analisadas revelam uma relação marcada por dependência financeira. Entre os registros estão:
- Transferências bancárias em dólar e em moeda brasileira.
- Pagamentos de procedimentos estéticos, incluindo implante de silicone.
- Compra de celulares.
- Custos com serviços de beleza.
- Apoio financeiro para despesas pessoais.
Em troca, segundo os e-mails, a brasileira apresentava outras mulheres a Epstein, enviava fotos e organizava possíveis encontros. Em uma das mensagens, ela afirma que ele “adoraria” determinada jovem, reforçando que era o “tipo” dele.
Também há registros de que Epstein teria sido informado por uma das mulheres sobre sua prisão iminente em 2008, poucos dias antes do ocorrido.
Suspeita de rede e conexões internacionais
A investigação não se limita ao caso de Natal. O MPF informou que irá:
- Acompanhar a divulgação de novos documentos do governo dos EUA.
- Identificar menções a brasileiros nos arquivos.
- Avaliar a possível existência de uma rede estruturada de aliciamento no país.
Um dos nomes citados nas mensagens é o do agente de modelos Jean-Luc Brunel, parceiro de Epstein, que esteve no Brasil em busca de modelos. Brunel foi preso na França sob acusações de crimes sexuais e morreu na prisão em 2022.
As conexões internacionais tornam o caso mais complexo, pois muitos fatos teriam ocorrido fora do território brasileiro.
Desafios jurídicos e mudanças na lei
A procuradora Cinthia Gabriela Borges destacou dois obstáculos centrais:
1. Decurso do tempo
- Grande parte dos fatos remonta a 2010, 2011 e 2012, o que dificulta a produção de provas.
2. Mudança na legislação
- Antes de 2016, o crime de tráfico internacional de pessoas se configurava apenas pelo aliciamento e envio ao exterior.
Após a mudança legislativa, passou a ser necessário comprovar vício de consentimento, como:
- Fraude
- Coação
- Violência
- Abuso de vulnerabilidade
Isso eleva o grau de complexidade da investigação.
O papel das vítimas
O MPF reforça que as mulheres que mantiveram contato com Epstein não são alvo da investigação.
Segundo a procuradora:
- Vítimas de tráfico não são responsabilizadas criminalmente.
- A participação delas é essencial para esclarecer como ocorreu o recrutamento.
- O foco da investigação está em possíveis aliciadores e intermediários.
- A colaboração pode ajudar a determinar se houve exploração sexual, abuso de vulnerabilidade ou atuação coordenada de terceiros.
O que ainda precisa ser esclarecido
Apesar das mensagens reveladas, permanecem dúvidas importantes:
- As viagens efetivamente aconteceram?
- Qual era a idade das mulheres envolvidas?
- Houve coerção ou exploração?
- Existia uma estrutura organizada de recrutamento no Brasil?
Sem o depoimento direto das possíveis vítimas e acesso a documentos complementares, muitas dessas perguntas seguem sem resposta definitiva.
O silêncio dos arquivos e a voz necessária das vítimas
- A abertura do procedimento pelo MPF marca um novo capítulo nas investigações sobre os tentáculos internacionais do esquema ligado a Jeffrey Epstein. O caso levanta suspeitas de possível aliciamento de brasileiras e eventual tráfico internacional de pessoas, mas ainda está em fase inicial.
A apuração enfrentará desafios jurídicos e probatórios, especialmente pelo tempo decorrido e pela dimensão internacional dos fatos. Ainda assim, o MPF afirma estar atento e reforça que a colaboração das vítimas será decisiva para esclarecer se houve exploração, abuso de vulnerabilidade ou atuação de uma rede organizada no Brasil.
