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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026 às 12:50 GMT+0

Tráfico internacional: MPF investiga como Jeffrey Epstein operava rede no Rio Grande do Norte e SP

O Ministério Público Federal (MPF) abriu um procedimento sigiloso para investigar possíveis tentativas de aliciamento de mulheres brasileiras relacionadas ao criminoso sexual Jeffrey Epstein. A decisão foi tomada após reportagem da BBC News Brasil revelar trocas de mensagens, pagamentos e indícios de intermediação envolvendo brasileiras e viagens ao exterior.

A investigação busca esclarecer se houve prática de tráfico internacional de pessoas, se existia uma rede de recrutamento no Brasil e qual era o grau de vulnerabilidade das mulheres envolvidas. Segundo o MPF, a participação de possíveis vítimas será fundamental para o avanço do caso.

O que motivou a investigação

O procedimento foi instaurado na Unidade Nacional de Enfrentamento ao Tráfico Internacional de Pessoas e ao Contrabando de Migrantes, órgão especializado do MPF.

A apuração teve como ponto de partida:

  • Troca de e-mails entre Epstein e uma brasileira, entre 2009 e 2013.
  • Referências a uma jovem de Natal (RN), descrita como de “família simples”.
  • Organização de passaporte e viagem aos Estados Unidos.
  • Pedido explícito de fotos em biquíni ou lingerie.
  • Indícios de ajuda financeira em troca de contatos e imagens de outras mulheres.

Não há confirmação, nas mensagens divulgadas, de que a viagem tenha ocorrido nem a idade das mulheres citadas.

Pagamentos, favores e intermediação

As mensagens analisadas revelam uma relação marcada por dependência financeira. Entre os registros estão:

  • Transferências bancárias em dólar e em moeda brasileira.
  • Pagamentos de procedimentos estéticos, incluindo implante de silicone.
  • Compra de celulares.
  • Custos com serviços de beleza.
  • Apoio financeiro para despesas pessoais.

Em troca, segundo os e-mails, a brasileira apresentava outras mulheres a Epstein, enviava fotos e organizava possíveis encontros. Em uma das mensagens, ela afirma que ele “adoraria” determinada jovem, reforçando que era o “tipo” dele.

Também há registros de que Epstein teria sido informado por uma das mulheres sobre sua prisão iminente em 2008, poucos dias antes do ocorrido.

Suspeita de rede e conexões internacionais

A investigação não se limita ao caso de Natal. O MPF informou que irá:

  • Acompanhar a divulgação de novos documentos do governo dos EUA.
  • Identificar menções a brasileiros nos arquivos.
  • Avaliar a possível existência de uma rede estruturada de aliciamento no país.

Um dos nomes citados nas mensagens é o do agente de modelos Jean-Luc Brunel, parceiro de Epstein, que esteve no Brasil em busca de modelos. Brunel foi preso na França sob acusações de crimes sexuais e morreu na prisão em 2022.

As conexões internacionais tornam o caso mais complexo, pois muitos fatos teriam ocorrido fora do território brasileiro.

Desafios jurídicos e mudanças na lei

A procuradora Cinthia Gabriela Borges destacou dois obstáculos centrais:

1. Decurso do tempo

  • Grande parte dos fatos remonta a 2010, 2011 e 2012, o que dificulta a produção de provas.

2. Mudança na legislação

  • Antes de 2016, o crime de tráfico internacional de pessoas se configurava apenas pelo aliciamento e envio ao exterior.

Após a mudança legislativa, passou a ser necessário comprovar vício de consentimento, como:

  • Fraude
  • Coação
  • Violência
  • Abuso de vulnerabilidade

Isso eleva o grau de complexidade da investigação.

O papel das vítimas

O MPF reforça que as mulheres que mantiveram contato com Epstein não são alvo da investigação.

Segundo a procuradora:

  • Vítimas de tráfico não são responsabilizadas criminalmente.
  • A participação delas é essencial para esclarecer como ocorreu o recrutamento.
  • O foco da investigação está em possíveis aliciadores e intermediários.
  • A colaboração pode ajudar a determinar se houve exploração sexual, abuso de vulnerabilidade ou atuação coordenada de terceiros.

O que ainda precisa ser esclarecido

Apesar das mensagens reveladas, permanecem dúvidas importantes:

  • As viagens efetivamente aconteceram?
  • Qual era a idade das mulheres envolvidas?
  • Houve coerção ou exploração?
  • Existia uma estrutura organizada de recrutamento no Brasil?

Sem o depoimento direto das possíveis vítimas e acesso a documentos complementares, muitas dessas perguntas seguem sem resposta definitiva.

O silêncio dos arquivos e a voz necessária das vítimas

  • A abertura do procedimento pelo MPF marca um novo capítulo nas investigações sobre os tentáculos internacionais do esquema ligado a Jeffrey Epstein. O caso levanta suspeitas de possível aliciamento de brasileiras e eventual tráfico internacional de pessoas, mas ainda está em fase inicial.

A apuração enfrentará desafios jurídicos e probatórios, especialmente pelo tempo decorrido e pela dimensão internacional dos fatos. Ainda assim, o MPF afirma estar atento e reforça que a colaboração das vítimas será decisiva para esclarecer se houve exploração, abuso de vulnerabilidade ou atuação de uma rede organizada no Brasil.

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