O cemitério da terceira via: Quem matou os partidos de 'Centro' no cenário político brasileiro? A polarização que engoliu a moderação política
Este resumo analisa a realidade política brasileira em 2026, baseando-se em estudos recentes sobre o comportamento dos partidos. A ideia de um "centro" moderado tornou-se um mito, e entender esse vazio é essencial para compreender as eleições deste ano.
O fantasma no banquete: Onde foi parar o centro político?
- Na famosa peça Macbeth, de William Shakespeare, o personagem principal vê o fantasma de um amigo assassinado sentado à mesa de um banquete. Apenas ele enxerga a assombração; para todos os outros, a cadeira está vazia.
- Na política brasileira de 2026, vivemos algo muito parecido: Candidatos, analistas e eleitores insistem em falar sobre um "centro democrático" ou uma "terceira via" como se fossem forças reais e organizadas. No entanto, as pesquisas científicas mais recentes confirmam: o centro ideológico no Brasil desapareceu.
- O que vemos hoje é uma cadeira vazia: Tentamos negociar com um fantasma enquanto a realidade do Congresso e das coligações mostra um país dividido entre polos bem definidos.
O diagnóstico: Como sabemos que o centro morreu?
Não se trata de uma opinião ou pessimismo: O desaparecimento do centro foi medido por especialistas que acompanham o comportamento dos partidos profissionalmente. Em estudos que compararam o cenário de 2018 com os anos seguintes, o veredito foi claro:
- Partidos que mudaram de lado: Legendas que antes ocupavam o meio do caminho migraram. O PV e a Rede, por exemplo, deslocaram-se firmemente para a centro-esquerda. Do outro lado, o Cidadania moveu-se para a centro-direita.
- O "vácuo" ideológico: Em uma escala de 0 (extrema esquerda) a 10 (extrema direita), a faixa central (entre 4,5 e 5,5) ficou deserta. Não sobrou nenhum partido relevante que se posicione exatamente no meio.
- Polarização extrema: O Brasil atingiu níveis de polarização superiores aos de países conhecidos por essa divisão, como Estados Unidos e Reino Unido.
Por que o Centro sumiu? Os dois principais motivos
Existem causas muito objetivas para esse fenômeno. O sistema político mudou e forçou os partidos a escolherem um lado para sobreviver.
1. A força de gravidade das federações
- Com o fim das coligações tradicionais e a criação das federações partidárias, os partidos menores foram obrigados a se unir aos maiores para não desaparecerem.
- O PT funcionou como um ímã, puxando partidos como o PCdoB e o PV para o seu campo de influência.
- No campo oposto, partidos menores foram absorvidos por grupos de direita ou centro-direita para garantir verbas e tempo de TV.
2. O impacto de lideranças fortes
- As figuras carismáticas e personalistas transformaram partidos que antes eram apenas "siglas de aluguel". O caso mais marcante foi o do PL, que se tornou um partido de direita clara e forte devido à influência direta de Jair Bolsonaro. Quando um líder desse tamanho entra em uma legenda, a identidade do partido muda para acompanhar sua ideologia.
A diferença de foco: Ideias versus Cargos
Um ponto curioso revelado pelas pesquisas é como a esquerda e a direita se organizam de formas diferentes no Brasil:
- Esquerda programática: Os partidos de esquerda tendem a ser mais focados em políticas públicas e programas de governo. Eles têm uma identidade ideológica mais definida e constante.
- Direita e o Centrão: Grande parte da direita brasileira (com poucas exceções) ainda é muito voltada para a conquista de cargos e votos. São partidos que funcionam melhor na base da negociação prática do que na defesa de um conjunto rígido de ideias.
Sem um "centro" para equilibrar essas duas formas de fazer política, o diálogo fica mais caro e difícil, pois não há um mediador natural no Congresso.
O que isso significa para as Eleições de 2026
- O desaparecimento do centro ideológico não é apenas uma curiosidade acadêmica; é um problema prático para a governabilidade. Sem partidos intermediários, as pontes entre o governo e a oposição ficam mais frágeis.
Para o eleitor que vai às urnas em 2026, a mensagem é clara: a política brasileira está mais nítida, porém mais rígida. O "centro" agora é um lugar ocupado por conveniência, não por convicção. Entender que estamos diante de uma cadeira vazia é o primeiro passo para não sermos enganados por promessas de moderação que, na prática, não possuem sustentação partidária.
