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sábado, 14 de fevereiro de 2026 às 12:08 GMT+0

Medicamento para Parkinson pode causar comportamento impulsivo/compulsivo? Caso de fraude milionária reacende debate sobre efeitos colaterais

A história do advogado britânico Andrew expõe um tema delicado e pouco discutido: os efeitos colaterais graves associados a medicamentos usados no tratamento do Parkinson. Ao longo de alguns anos, ele desviou o equivalente a mais de R$ 4 milhões de clientes, muitos deles idosos e vulneráveis, para financiar comportamentos compulsivos, como gastos com sexo e antiguidades.

Posteriormente, a Justiça reconheceu que o comportamento impulsivo estava relacionado ao uso de um agonista da dopamina, classe de medicamento amplamente prescrita para tratar sintomas da doença. O caso, porém, levanta questionamentos complexos sobre responsabilidade, informação adequada aos pacientes e monitoramento médico.

O início da queda: Prisão e descoberta da fraude

  • A rotina da família mudou drasticamente quando Andrew foi preso sob acusação de fraude: Ele atuava como advogado no sul de Manchester, no Reino Unido, e administrava procurações de clientes idosos, muitos com demência.

A investigação: Revelou que cerca de £ 600 mil haviam sido retiradas indevidamente das contas de 13 clientes, 11 deles com mais de 80 anos. Parte do dinheiro foi usada para:

  • Pagamentos recorrentes em sites de sexo ao vivo
  • Gastos com profissionais do sexo
  • Compras compulsivas de antiguidades e objetos colecionáveis

O escândalo destruiu a reputação profissional de Andrew e abalou profundamente sua família.

O papel do Pramipexol e dos agonistas da dopamina

  • Andrew fazia tratamento para Parkinson com o medicamento Pramipexol, um agonista da dopamina também comercializado no Brasil: Esses medicamentos aumentam a atividade da dopamina no cérebro, substância essencial para o controle motor, mas também ligada aos circuitos de recompensa e prazer.
  • Os efeitos iniciais foram considerados “milagrosos”: os tremores diminuíram, e ele voltou a praticar atividades físicas. No entanto, com o tempo, surgiram mudanças comportamentais significativas.

Estudos indicam que uma parcela relevante dos pacientes que utilizam agonistas da dopamina pode desenvolver transtornos de controle de impulsos, incluindo:

  • Hipersexualidade
  • Vício em pornografia
  • Jogos de azar
  • Compras compulsivas
  • Gastos financeiros desproporcionais

Muitas famílias relatam que não receberam orientação clara sobre esses riscos ou não conseguiram associar os comportamentos ao medicamento.

Consequências devastadoras

  • Andrew foi condenado a quatro anos de prisão e cumpriu parte da pena na prisão de Manchester, conhecida como HM Prison Manchester.
  • Durante o processo, o juiz reconheceu a influência do medicamento em seu comportamento, mas entendeu que ele ainda tinha responsabilidade por seus atos, especialmente por exercer uma profissão que exigia alto grau de confiança.

As consequências não foram apenas jurídicas:

  • Os bens da família foram congelados.
  • O casamento terminou durante o período de prisão.
  • O filho do casal, que já enfrentava problemas de saúde mental, teve seu quadro agravado e posteriormente cometeu suicídio.
  • Anos depois, o próprio Andrew também tirou a própria vida.
  • O impacto emocional e social foi irreversível.

Falhas de informação e o sistema de notificação

No Reino Unido, reações adversas a medicamentos podem ser registradas no sistema Medicines and Healthcare products Regulatory Agency, por meio do programa Yellow Card. No entanto, especialistas e parlamentares afirmam que o modelo atual pode não capturar adequadamente efeitos considerados constrangedores ou difíceis de relatar, como os ligados ao comportamento sexual.

A deputada Layla Moran tem defendido mudanças nos alertas oficiais, solicitando que:

  • Seja informada a frequência estimada desses transtornos.
  • Haja descrição mais clara dos tipos de comportamentos possíveis.
  • Pacientes e familiares recebam orientação mais objetiva e monitoramento contínuo.

Por outro lado, órgãos reguladores argumentam que os comportamentos são individualizados e de difícil padronização em bula.

O que dizem as farmacêuticas e diretrizes médicas

  • A farmacêutica GlaxoSmithKline declarou que seus medicamentos passaram por testes rigorosos e que os dados de segurança foram compartilhados com autoridades regulatórias.
  • Desde 2017, diretrizes clínicas britânicas recomendam que médicos informem verbalmente e por escrito os riscos de transtornos de controle de impulsos e realizem acompanhamento regular dos pacientes. Ainda assim, muitos relatos indicam falhas na comunicação ou no monitoramento.

Um problema que vai além de um caso isolado

O caso de Andrew não é único. Famílias relatam perdas financeiras severas, destruição de casamentos e danos emocionais profundos associados ao uso de agonistas da dopamina.

O debate atual envolve questões centrais:

1. Como equilibrar os benefícios motores do tratamento com os riscos comportamentais?
2. Qual é o limite da responsabilidade individual quando há influência farmacológica comprovada?
3. Os sistemas de notificação e as bulas informam de maneira suficiente e transparente?

Transparência, informação e monitoramento

  • A história de Andrew evidencia que efeitos colaterais psiquiátricos e comportamentais podem ser tão devastadores quanto sintomas físicos de uma doença. Embora os agonistas da dopamina sejam tratamentos consolidados para o Parkinson, a falta de informação clara, monitoramento rigoroso e suporte adequado pode transformar um medicamento em um fator desencadeador de tragédias pessoais e familiares.

Mais do que um debate jurídico ou médico, o caso reacende a necessidade de transparência, vigilância ativa e apoio às famílias afetadas para que benefícios terapêuticos não venham acompanhados de consequências silenciosas e irreparáveis.

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