Conteúdo verificado
segunda-feira, 8 de dezembro de 2025 às 10:34 GMT+0

Além do insulto: Por que chamar o oponente de 'burro' destrói o debate sobre ciência, fé e crenças?

Este artigo, originalmente publicado em 3 de dezembro de 2025, explora a formação de crenças que parecem desafiar a lógica e a evidência, como o Terraplanismo, a fé em espíritos e teorias da conspiração. O autor, Eli Elster, Doutorando em Antropologia Evolucionista, propõe uma perspectiva intrigante: nossas experiências pessoais são o motor por trás da aceitação dessas ideias extraordinárias.

O enigma das crenças sem evidência

Por que o cérebro humano, que evoluiu para criar modelos precisos do mundo, adota e desenvolve convicções que parecem carecer de provas sólidas?

  • O caso "Mad" Mike Hughes: A trágica tentativa de "Mad" Mike Hughes de provar a Terra plana, que culminou em sua morte, ilustra a força de uma convicção, por mais refutada que seja.
  • A onipresença da convicção: Em todas as culturas, as pessoas mantêm crenças que o autor denomina "extraordinárias", ideias que para observadores externos parecem desprovidas de evidências.
  • A proposta central: O autor sugere que as pessoas chegam a acreditar no Terraplanismo, em espíritos ou em microchips em vacinas pelas mesmas razões que acreditam em qualquer outra coisa: suas vivências pessoais as levam a considerar essas crenças como verdadeiras.

Perspectivas atuais e o foco na experiência

A maioria dos cientistas sociais tende a considerar que crenças sobrenaturais e teorias da conspiração são imunes à experiência, focando em outros fatores:

  • Vieses cognitivos: Atalhos mentais que levam a erros de raciocínio, como a propensão a ver intenções e inteligência por trás de eventos aleatórios (ex: divindades controlando o clima).
  • Dinâmica social: A adoção de crenças para fazer parte de um grupo ou para transmitir uma mensagem sobre si mesmo aos outros (ex: comunidades leais e solidárias de co-crentes).

Embora esses fatores sejam relevantes, eles negligenciam a forma como a experiência interage com eles. O autor destaca três caminhos cruciais:

1. A experiência como filtro

A experiência pessoal atua como um filtro, determinando quais crenças extraordinárias têm potencial para se espalhar com sucesso na sociedade.

  • O exemplo da terra plana: Embora a teoria do "cone terrestre" seja igualmente incorreta, a Terra Plana prevalece porque é corroborada pela evidência visual imediata – quando estamos no chão, a Terra parece plana.
  • Confiança no visível: Para alguns, a percepção do que os olhos veem no dia a dia é mais convincente do que a evidência científica remota.

2. A experiência como desencadeadora

Experiências estranhas e difíceis de explicar servem como gatilhos, levando as pessoas a adotar crenças que parecem adequadamente "estranhas" para explicá-las.

  • Paralisia do sono: O fenômeno de se sentir acordado, mas incapaz de se mover ou falar, frequentemente acompanhado pela sensação de uma presença ameaçadora.
  • A interpretação sobrenatural: Na ausência de um entendimento científico (confusão neural), a vivência aterrorizante é facilmente interpretada como evidência de seres sobrenaturais.

3. A experiência como ferramenta de criação de evidências

As pessoas não apenas adotam crenças extraordinárias, mas desenvolvem práticas imersivas que criam evidências sensoriais que fazem essas crenças parecerem reais.

  • Vivências rituais: Práticas como oração, dança ritualística e o uso religioso de substâncias psicoativas (ex: poção alucinógena de curandeiras) transformam conceitos abstratos em experiências concretas.
  • Reforço de crenças: Ver espíritos ou ouvir vozes ancestrais após um ritual reforça dramaticamente a crença na existência dessas entidades.

O que podemos aprender

Crenças extraordinárias não são inerentemente positivas ou negativas; por exemplo, a fé religiosa proporciona significado e comunidade a bilhões. No entanto, a desinformação em áreas como ciência e política é perigosa.

  • Combate à desinformação: Reconhecer que essas crenças são moldadas pela experiência é o primeiro passo para encontrar maneiras mais eficazes de combater sua disseminação.
  • Mais compaixão: Esta perspectiva pode incentivar uma maior compreensão e empatia, lembrando-nos de que aqueles que têm crenças diferentes não são "loucos". Eles genuinamente sentem que a evidência está do lado deles, assim como nós sentimos em relação às nossas próprias convicções.

"O erro fundamental no debate sobre fé e ciência não está na ausência de fatos, mas na presença de arrogância. Chamar o crente de 'burro' não é um argumento científico; é o atestado da sua própria falha em comunicar. Nenhum muro de superioridade intelectual já convenceu alguém a mudar de ideia. O diálogo construtivo exige a renúncia ao escárnio e a busca sincera por entender a origem da crença alheia."

Para entender e abordar as crenças extraordinárias, seja a fé que conforta ou a desinformação que ameaça, devemos ir além de rotular as pessoas como iludidas. É imperativo reconhecer que, para o crente, a experiência pessoal é a prova mais poderosa de todas, moldando a realidade interna de forma tão inegável quanto qualquer fato científico. Somente com esta empatia e foco na raiz vivencial, e não apenas no sintoma, poderemos construir pontes de diálogo e combater a desinformação de forma eficaz.

Estão lendo agora

Opus Dei e Papa Leão 14: Em nome de Deus? As lições do Vaticano para que a fé nunca mais seja usada como arma de opressãoEsta é uma análise resumida sobre o complexo cenário político e religioso que envolve o Opus Dei e a Santa Sé. O texto r...
Crueldade animal como treino: O perigoso perfil dos agressores de animais - Entenda a 'Teoria do elo'O caso do cão Orelha é um soco no estômago, mas tratá-lo apenas como "crueldade isolada" é ignorar um padrão perigoso. É...
Amor Traiçoeiro: Vale a pena sssistir? Confira a trama, elenco e segredos da Minissérie que conquistou o Top 10 da NetflixA minissérie italiana Amor Traiçoeiro, disponível na Netflix, ganhou rapidamente destaque, alcançando o top 10 da plataf...
Chemsex: O perigo da combinação entre drogas e sexo - Riscos, dados e redução de danosO "chemsex", termo derivado da expressão em inglês chemical sex ("sexo químico"), é uma prática que combina o uso de sub...
Grande grupo brasileiro: A conexão do Brasil com a rede de Jeffrey Epstein revelada em documentos do FBIA divulgação de dezenas de milhares de páginas de arquivos pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, em dezembro ...
Prime Video em Maio 2025: Confira os melhores lançamentos – Filmes, séries e documentários imperdíveis!O Prime Video, serviço de streaming da Amazon, anunciou sua lista de lançamentos para maio de 2025, repleta de estreias ...
6 filmes na Netflix para aproveitar a onda de frio: Romance, terror e suspense para aquecer seu invernoCom a chegada do inverno e as temperaturas mais baixas, nada melhor do que aproveitar o conforto de casa com filmes que ...
Prime Video Fevereiro 2026: Veja as novidades e saiba o que assistirEste resumo apresenta as principais estreias e atualizações do catálogo do Prime Video para fevereiro de 2026. Embora o ...
Estoicismo: Como enfrentar desafios e aceitar o que não podemos controlarO estoicismo é uma filosofia antiga que se destaca por ensinar a importância de aceitar o que não está em nosso controle...
Mundial de atletismo: Brasileiro Caio Bonfim é Prata nos 35km e entra para a históriaSam Barnes/Sportsfile via Getty Images Na noite de sexta-feira, 12 de setembro de 2025, o atleta Caio Bonfim adicionou m...
Os 10 mandamentos do crime: O código de conduta que rege as favelas do Comando Vermelho e que não mudam após a megaoperação do estadoO Comando Vermelho (CV), uma das maiores facções criminosas do Brasil, impõe um regime de regras estritas e punições sev...
O mistério do filho de Margarida Bonetti: Onde ele está e por que não aparece em 'A mulher da casa abandonada'?O caso de A Mulher da Casa Abandonada, explorado no podcast de Chico Felitti (2022) e na série documental do Prime Video...