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segunda-feira, 19 de janeiro de 2026 às 11:16 GMT+0

Do Egito ao TikTok: A fascinante jornada do "delineador" através dos séculos - Gueixas, beduínos e rainhas - Quem realmente inventou o delineador?

Para muitos, o ato de traçar uma linha escura ao redor dos olhos é apenas o passo final de uma rotina de beleza. No entanto, para a jornalista Zahra Hankir e milhões de pessoas ao redor do globo, essa prática é um portal para a ancestralidade. Ao aplicar o pigmento em seu apartamento em Nova York, Hankir descreve uma conexão profunda com suas raízes libanesas, unindo gerações de mulheres que, através dos séculos, transformaram um minério em um símbolo de resistência e identidade.

O reconhecimento dessa importância histórica atingiu um novo patamar recentemente: a Unesco incluiu oficialmente o kohl árabe em sua lista de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Esta designação não celebra apenas um cosmético, mas protege o conhecimento milenar, os rituais e o artesanato que envolvem sua produção, garantindo que essa tradição não seja diluída pela indústria de beleza globalizada.

O Kohl e suas muitas faces globais

  • Embora o termo árabe kohl seja o mais difundido mundialmente, o delineador assume identidades distintas dependendo da geografia. No Sul da Ásia, ele é o vibrante kajal; na Nigéria, é conhecido como tiro; enquanto no Irã, recebe o nome de sormeh.
  • Historicamente, o pigmento era produzido a partir do antimônio, um semimetal de brilho prateado ou chumbo. Com o tempo e a evolução das normas de saúde, as fórmulas modernas evoluíram para ingredientes seguros, mas o método de aplicação tradicional permanece: o uso da makhala (o pote que armazena o pigmento) e do merwad (a haste utilizada para o traçado).

A herança de Nefertiti: A primeira influenciadora

As raízes documentadas do delineador nos levam ao Egito Antigo, onde o uso do pigmento transcendia o gênero e a classe social. Mais do que estética, o kohl tinha funções práticas e espirituais:

  • Proteção física: Ajudava a reduzir o reflexo do sol e possuía propriedades que protegiam os olhos de infecções comuns nas regiões áridas.
  • Espiritualidade: Era um amuleto contra o "mau-olhado" e acompanhava os mortos em suas tumbas para garantir proteção na vida após a morte.
  • A rainha Nefertiti é frequentemente apontada como a precursora dessa estética: Quando seu busto foi revelado na Alemanha em 1912, o mundo ficou hipnotizado pelo contraste harmonioso de seus olhos delineados. Esse visual não apenas definiu o padrão de beleza da época, como continua a pautar milhões de tutoriais em plataformas como TikTok e Instagram em 2026.

Um símbolo de proteção e identidade

A pesquisa de Zahra Hankir, detalhada em seu livro Eyeliner: A Cultural History, revela que o delineador é um elemento onipresente, mas com significados que mudam conforme a fronteira:

  • Japão: As gueixas utilizam o delineador vermelho como uma barreira simbólica para afastar maus espíritos.
  • Comunidades chicanas: Para a cultura chola mexicano-americana, o delineador forte é uma afirmação de orgulho cultural e resistência política.
  • África e Jordânia: No Chade, homens da tribo nômade Wodaabe usam a maquiagem para realçar a beleza em concursos onde são avaliados por mulheres. Já em Petra, os beduínos utilizam o pigmento tanto pela estética quanto pela proteção solar necessária no deserto.

Mais que estética, um ato político e espiritual

  • O reconhecimento da Unesco é uma vitória para as comunidades do Sul Global que preservaram essa tradição apesar do colonialismo e do apagamento cultural. O delineador não é apenas um acessório de moda; é uma prática viva que carrega o peso da história e a leveza da autoexpressão.

Para quem o usa, seja no deserto da Jordânia ou em um centro urbano como São Paulo ou Nova York, o traço nos olhos continua sendo o que sempre foi: um ritual de proteção, um rito de passagem e, acima de tudo, uma forma silenciosa, mas poderosa, de dizer ao mundo quem se é.

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