Do martírio aos doces: A história de "Cosme e Damião" dos imperadores romanos aos orixás
A história de Cosme e Damião atravessa séculos, mesclando fé, tradição e atos de caridade que os tornaram figuras amadas em todo o mundo. Conhecidos como os "santos médicos" ou "santos anárgiros" (inimigos do dinheiro), sua narrativa é um fascinante exemplo de como a devoção popular constrói e perpetua legados. Este resumo detalha quem eles foram, sua importância histórica e religiosa, e como sua celebração se transformou, especialmente no Brasil, em um sincretismo rico e colorido.
As origens históricas e a tradição
A primeira e mais crucial distinção a ser feita sobre Cosme e Damião é entre a história documentada e a tradição religiosa.
- A evidência do culto: Historicamente, não há registros diretos de suas vidas. O que os especialistas confirmam, como explica o vaticanista Filipe Domingues, é que o culto a eles como santos e mártires começou entre os séculos 4º e 5º em Roma. A prova concreta de sua existência para a Igreja Católica está no "Martirológio Romano", um catálogo oficial de santos, que os apresenta como médicos que curavam sem cobrar remuneração.
- A tradição consolidada: A tradição, documentada em obras como a "Legenda Aurea" do arcebispo Jacopo de Varazze (século 13), descreve Cosme e Damião como irmãos gêmeos, nascidos na região da atual Turquia ou Síria. Eles teriam vivido provavelmente entre o primeiro e o terceiro séculos da era cristã, exercendo a medicina com grande habilidade e, o ponto central de sua história, sem aceitar qualquer pagamento. Essa prática lhes rendeu o título de "anárgiros".
A importância e a relevância de sua história
A narrativa de Cosme e Damião é relevante por várias razões que vão além do aspecto puramente religioso.
- Símbolos de caridade e ética profissional: Eles representam o ideal de cuidado desinteressado e da caridade cristã. Sua recusa em cobrar pelos serviços médicos os torna um modelo de ética e abnegação, valores universais que ressoam até hoje.
- Exemplos de martírio e fé: Como parte da Igreja primitiva, eles foram vítimas da grande perseguição do imperador Diocleciano. Segundo a tradição, após converterem muitas pessoas através de seus atos, foram presos, torturados e, após sobreviverem milagrosamente a tentativas de lapidação e flechadas, foram decapitados por volta do ano 300. Seu martírio solidificou sua fama como santos de fé inabalável.
- A conexão com o sincretismo religioso: A história deles demonstra a capacidade de adaptação e fusão de crenças. No Brasil, houve um sincretismo único onde Cosme e Damião foram associados aos Ibejis, orixás gêmeos filhos de Xangô e Iansã nas religiões de matriz africana. Essa fusão deu origem à popular tradição de distribuir doces para crianças no seu dia.
Os milagres e a lenda do transplante
A fama de curandeiros de Cosme e Damião foi ampliada por relatos milagrosos que circularam ao longo dos séculos. O mais extraordinário é, sem dúvida, a lenda do transplante de perna.
- O milagre do transplante: Uma das versões da história conta que os santos, já após sua morte, apareceram em um sonho a um sacristão que sofria de uma grave infecção (hanseníase) na perna. Eles teriam amputado o membro doente e transplantado no lugar a perna saudável de um homem africano que havia falecido recentemente. Uma pintura do século 16, mencionada no texto, ilustra justamente este suposto milagre cirúrgico, mostrando como a imaginação popular via seus poderes.
A celebração popular e o sincretismo no Brasil
A devoção a Cosme e Damião ganhou contornos especiais e muito particulares no Brasil.
- A distribuição de doces: O costume de distribuir doces para crianças no dia
27 de setembro (ou 26, conforme a revisão do calendário católico em 1969)é uma tradição tipicamente brasileira. Como explica o teólogo J. Alves, ela surge do sincretismo com os Ibejis, que estão associados à alegria, à infância e à fertilidade. O pesquisador José Luís Lira vê nesse gesto uma forma de "ex-voto", um agradecimento aos santos por uma graça alcançada. - Uma possível origem pagã: Curiosamente, alguns estudiosos, como o pesquisador Thiago Maerki, apontam que a própria origem do culto a Cosme e Damião pode ser um sincretismo anterior. Eles sugerem que a veneração aos dois médicos santos teria sido uma adaptação cristã de cultos pagãos a divindades da cura, como Esculápio (Asclépio) na mitologia greco-romana ou Serápis, do mundo helenístico-egípcio.
Cosme e Damião são, portanto, figuras cuja história real se perde no tempo, mas cujo legado é vibrante e profundamente enraizado na cultura e na fé. Eles transcendem o âmbito estritamente católico para se tornarem símbolos de generosidade, cura e alegria infantil. Sua jornada—da possível inspiração em deuses pagãos ao martírio cristão, e da veneração em antigas basílicas romanas à festa sincretizada nas ruas brasileiras—é um testemunho eloquente do poder das histórias para unir pessoas através de valores universais como o cuidado com o próximo e a celebração da vida.
