Investigação da BBC sobre casas de repouso de luxo: Negligência em asilos - O que famílias precisam saber antes de escolher uma instituição
Esta reportagem apresenta uma investigação profunda e sensível sobre a realidade oculta em instituições de longa permanência para idosos. Através do relato da jornalista Catriona MacPhee, da BBC Escócia, somos confrontados com o contraste entre o marketing do "luxo" e a dura negligência cotidiana.
Abaixo, detalhamos os pontos centrais dessa investigação e como esse cenário se reflete na realidade brasileira.
O contraste entre o luxo e a negligência
- A investigação focou na Castlehill, uma casa de repouso em Inverness, na Escócia, que cobra mensalidades equivalentes a mais de
R$ 50 mil mensais. Apesar da infraestrutura imponente e do guarda-roupa de cashmere dos moradores, a realidade interna era de abandono. A jornalista infiltrou-se como faxineira por sete semanas e presenciou idosos clamando por necessidades básicas, como ir ao banheiro ou simplesmente serem higienizados. - O caso que motivou a infiltração foi o de Susan Christie, que instalou uma câmera escondida no quarto do pai e registrou episódios de violência física e negligência severa, incluindo privação de higiene por mais de 12 horas e manuseio bruto por parte dos funcionários.
A crise do cuidado e a sobrecarga de profissionais
Um dos pontos mais alarmantes destacados por MacPhee é a precariedade do quadro de funcionários. A falta de profissionais qualificados gerava um ciclo de desespero:
- Dignidade perdida: Idosos choravam ao perder o controle de suas funções fisiológicas por falta de auxílio para chegar ao banheiro, que muitas vezes estava a poucos metros de distância.
- Abandono afetivo: A jornalista relatou casos de idosos que passavam o dia inteiro em quartos fechados, com as cortinas cerradas e o ar impregnado de odores fortes, sem qualquer contato humano ou estímulo visual.
- Desvalorização financeira: Especialistas apontam que, na Escócia, profissionais que passeiam com cães chegam a ganhar mais do que cuidadores de idosos, o que reflete a baixa prioridade dada ao cuidado humano na base da pirâmide salarial.
Conexão humana como alívio na confusão
Mesmo sob disfarce e com a missão de filmar secretamente, a jornalista descreveu momentos de profunda humanidade. Para muitos moradores, a faxineira era a única pessoa disponível para uma conversa. Ela relatou que pequenos gestos, como ouvir histórias sobre o passado ou cantar juntos no corredor, eram capazes de acalmar idosos em estados avançados de demência. Esses momentos revelaram que, além do cuidado médico, a maior carência dessas instituições é a interação social digna.
Como funciona a fiscalização e o cuidado no Brasil
No Brasil, o cenário de casas de repouso, tecnicamente chamadas de Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs), compartilha semelhanças com o caso escocês, mas possui regramentos específicos:
- Regulação e fiscalização: As ILPIs no Brasil são reguladas pela Anvisa, através da RDC nº 502/2021. Elas devem ser fiscalizadas periodicamente pela Vigilância Sanitária e pelo Ministério Público.
- Estatuto do idoso: A Lei nº 10.741/2003 garante que é obrigação da família, da comunidade e do poder público assegurar ao idoso o direito à dignidade e à convivência familiar. Negligência ou maus-tratos em asilos são crimes previstos em lei.
- Denúncias: O principal canal para relatar abusos ou condições precárias no Brasil é o Disque 100 (Direitos Humanos). Diferente do caso britânico, onde a Inspetoria de Cuidados publica rankings de queixas, no Brasil o acesso a esses dados ainda é menos transparente para o consumidor comum.
- Custo vs. Qualidade: Assim como na Escócia, o Brasil enfrenta um abismo entre clínicas particulares de alto padrão e instituições filantrópicas que operam com recursos escassos, embora o alto valor da mensalidade não seja, por si só, uma garantia absoluta contra a negligência.
A experiência de Catriona MacPhee serve como um alerta global: o envelhecimento da população exige mais do que investimentos em prédios luxuosos; exige um diálogo sobre a valorização dos cuidadores e a fiscalização rigorosa dos serviços prestados. A dignidade humana não deve ter preço, e a vulnerabilidade da velhice não pode ser silenciada por paredes de instituições negligentes.
