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terça-feira, 3 de fevereiro de 2026 às 10:52 GMT+0

Polilaminina brasileira: A molécula da UFRJ que virou a maior esperança para tetraplégicos e paraplégicos

A descoberta da polilaminina representa um dos capítulos mais promissores da neurociência brasileira. O que começou como um estudo laboratorial despretensioso na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) evoluiu para uma terapia experimental que busca devolver movimentos a pessoas com paralisia decorrente de lesões medulares graves.

Em fevereiro de 2026, o projeto atingiu um marco decisivo: o início da Fase 1 dos estudos clínicos autorizados pela Anvisa, aproximando a ciência acadêmica da prática hospitalar.

O que é a polilaminina e como ela atua no organismo

A polilaminina é uma versão otimizada em laboratório da laminina, uma proteína que o corpo humano produz naturalmente, especialmente na placenta. Ela desempenha um papel vital no desenvolvimento do embrião, ajudando na organização dos tecidos.

No contexto das lesões medulares, a polilaminina funciona de forma estratégica:

  • Andaime molecular: Ao ser aplicada na medula lesionada, a substância cria uma espécie de estrutura de suporte ou "guia".
  • Reconstrução de axônios: Esse suporte permite que os axônios as extensões dos neurônios que são rompidas no trauma encontrem um caminho para crescer e se reconectar.
  • Potencialização natural: Embora a laminina comum já tenha essa função, a versão "poli" (polimerizada) é mais estável e potente, resistindo melhor ao ambiente hostil de uma lesão.

De resíduo hospitalar a medicamento: A origem da matéria-prima

Um dos pontos mais fascinantes do projeto é a sua sustentabilidade e origem ética. A proteína não é produzida de forma sintética (recombinante), mas extraída de placentas humanas doadas.

  • Parceria com maternidades: Através de uma colaboração entre a farmacêutica Cristália e hospitais, gestantes são convidadas a doar a placenta após o parto, material que normalmente seria descartado.
  • Rigor sanitário: As doadoras passam por um acompanhamento rigoroso durante o pré-natal para garantir que o material esteja livre de vírus ou contaminações.
  • Processamento de ponta: No laboratório, a laminina é purificada e separada de outras proteínas, sendo preparada para se transformar em polilaminina apenas no momento da cirurgia, quando o médico mistura a proteína ao diluente.

Resultados que desafiam as estatísticas tradicionais

Os dados colhidos antes do início da fase oficial de testes clínicos geraram um otimismo cauteloso na comunidade científica. Em um estudo piloto com oito pacientes que possuíam lesões medulares completas (o nível mais grave de paralisia):

  • Taxa de recuperação: Enquanto a literatura médica prevê que apenas 15% desses pacientes apresentem alguma melhora espontânea com tratamentos convencionais, o grupo tratado com polilaminina registrou 75% de recuperação de algum nível de movimento.
  • O papel da reabilitação: A pesquisadora Tatiana Sampaio reforça que a molécula não age sozinha. A fisioterapia intensa é indispensável para "ensinar" aos novos axônios para onde eles devem ir e qual função devem desempenhar.
  • Casos extraordinários: Relatos de pacientes que recuperaram movimentos de braços e controle de tronco após a aplicação, alguns via decisões judiciais (liminares), têm alimentado o debate sobre a urgência do acesso ao tratamento.

O cronograma para o futuro e os desafios éticos

Apesar dos avanços, a comunidade científica prega cautela: O uso da polilaminina via liminares judiciais é visto com ressalvas por pesquisadores, pois foge ao controle rigoroso de coleta de dados e segurança.

O caminho oficial agora segue etapas bem definidas:

  • Fase 1 (2026): Testes de segurança em cinco pacientes com lesões torácicas agudas para garantir que a substância não cause efeitos colaterais graves.
  • Fase 2 e 3: Testes de eficácia em grupos maiores de voluntários.
  • Registro definitivo: Se os resultados forem positivos e constantes, a previsão é que o pedido de registro definitivo na Anvisa ocorra em 2028.

A polilaminina é um exemplo de como a ciência básica brasileira, quando aliada à indústria nacional, pode produzir inovação de impacto global. Embora ainda não possa ser chamada de "cura" e demande mais anos de estudo para comprovação definitiva, ela oferece uma base biológica real para a esperança de milhares de pessoas que vivem com as limitações de uma lesão medular.

"A regeneração exige um ambiente favorável. A polilaminina oferece esse ambiente, mas é o esforço do paciente e a precisão da equipe médica que completam o ciclo da recuperação."

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