O que está por trás do convite de Trump a Lula para integrar o Conselho de Paz em Gaza? Riscos e dificuldades para os escolhidos
Em um movimento que redefine as peças no tabuleiro geopolítico do Oriente Médio, o presidente Donald Trump convidou oficialmente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva para integrar o recém-criado "Conselho de Paz" para Gaza. O convite, transmitido pela Embaixada do Brasil em Washington e confirmado pelo Itamaraty, coloca o Brasil em uma posição central em uma das crises mais complexas da atualidade. Este gesto ocorre em um momento de reaproximação diplomática entre Brasília e Washington, consolidada recentemente pela flexibilização de tarifas comerciais impostas pelos EUA a produtos brasileiros.
O Conselho de Paz faz parte do ambicioso plano de 20 pontos de Trump para encerrar o conflito entre Israel e o Hamas, buscando uma coalizão internacional de líderes para supervisionar a transição e a reconstrução da região.
A composição do Conselho e a aliança global
O convite a Lula não é um fato isolado, mas sim parte de uma estratégia para reunir líderes de diferentes espectros políticos e regiões geográficas. Além do presidente brasileiro, a lista de convidados inclui:
- Javier Milei (Argentina): Representando uma guinada à direita na América Latina e um aliado ideológico de Trump.
- Keir Starmer (Reino Unido) e Mark Carney (Canadá): Trazendo o peso das potências do G7 e do Commonwealth.
- Recep Tayyip Erdogan (Turquia) e Abdel Fattah El-Sisi (Egito): Peças fundamentais devido à proximidade geográfica e influência religiosa e política na região.
Este grupo formará o topo de uma pirâmide administrativa que contará ainda com um "Conselho Executivo" e comitês técnicos para a governança cotidiana de Gaza.
Figuras de peso na execução do plano
Para garantir que as diretrizes do Conselho de Paz saiam do papel, o governo Trump escalou nomes influentes para o Conselho Executivo e para a gestão direta em campo:
- Tony Blair: O ex-primeiro-ministro britânico, com vasta experiência como enviado ao Oriente Médio, atuará na linha de frente, apesar de sua trajetória ser vista como controversa por alguns setores devido à Guerra do Iraque.
- Marco Rubio e Steve Witkoff: Como Secretário de Estado e Enviado Especial, respectivamente, eles representam os olhos e ouvidos de Trump na diplomacia e na segurança.
- Jared Kushner: O genro de Trump retorna ao cenário internacional, focando na viabilidade econômica e reconstrução da infraestrutura de Gaza.
- Ajay Banga: O presidente do Banco Mundial será o elo necessário para o financiamento internacional da reconstrução.
A engrenagem administrativa: O papel do NCAG
- Enquanto os líderes mundiais discutem a paz em alto nível, a administração prática de Gaza ficará a cargo do Comitê Nacional para a Administração de Gaza (NCAG). Este órgão será liderado pelo palestino Ali Shaath e composto por 15 membros independentes. O objetivo é criar uma estrutura técnica capaz de gerenciar serviços básicos e a ordem pública durante o período de governança temporária, sob a supervisão do diretor-geral Nickolay Mladenov.
Os desafios e riscos para os escolhidos
Participar deste conselho não é apenas uma honraria diplomática, mas um caminho repleto de dificuldades críticas para qualquer líder que aceite o desafio:
- Legitimidade e representação: Até o momento, a ausência de mulheres e de representantes palestinos no conselho principal gera críticas sobre a representatividade do grupo, o que pode dificultar a aceitação das decisões no terreno.
- Equilíbrio de pressões internas: Para Lula, aceitar o convite significa equilibrar a relação com os EUA sem alienar setores de sua base que são críticos à influência americana ou à postura de Israel.
- A complexidade da desmilitarização: O plano prevê a desmilitarização completa de Gaza e o desarmamento do Hamas. Implementar isso na prática, sem gerar novos ciclos de violência, é um desafio logístico e de inteligência sem precedentes.
- Reconstrução vs. Política: Figuras como Jared Kushner defendem o potencial econômico da região, mas transformar uma zona de guerra em um polo de subsistência exige estabilidade política que o conselho ainda precisa provar que pode garantir.
O Brasil diante de uma encruzilhada diplomática
A proposta de Donald Trump coloca o Brasil diante de uma oportunidade histórica de exercer seu papel de "mediador nato", mas o custo político é elevado. A decisão de Lula de aceitar ou não o assento no Conselho de Paz definirá o tom da política externa brasileira para os próximos anos. Se por um lado a participação garante voz ativa em uma questão global de primeira ordem, por outro, vincula a imagem do país a um plano que ainda enfrenta ceticismo internacional e imensos obstáculos práticos. O mundo aguarda agora a resposta de Brasília e os próximos nomes que completarão este mosaico de poder.
