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domingo, 15 de dezembro de 2024 às 11:09 GMT+0

Rage-Baiting: Como a raiva nas redes sociais virou um negócio milionário

Nos últimos anos, as redes sociais se transformaram em um palco lucrativo para criadores de conteúdo que exploram a raiva como estratégia de engajamento. A prática, conhecida como rage-baiting, envolve a produção de publicações intencionalmente provocativas para gerar reações negativas, como raiva e indignação, que impulsionam curtidas, comentários e compartilhamentos. Este comportamento é amplificado pelos algoritmos, que priorizam conteúdo altamente engajado, independentemente do tom emocional.

O que é Rage-Baiting?

Diferente do clickbait, que atrai cliques com manchetes sensacionalistas, o rage-baiting busca incitar emoções negativas para maximizar interações. Essa estratégia aproveita uma característica psicológica humana: nossa atenção é instintivamente atraída por ameaças ou informações perturbadoras. Segundo o pesquisador William Brady, esse viés evolutivo, útil em tempos primitivos, é agora explorado nas redes sociais, onde conteúdo negativo é amplificado.

O lucro por trás do ódio

  • Winta Zesu, criadora de conteúdo e modelo em Nova York, ilustra bem essa prática. Em 2023, ela faturou US$ 150 mil (cerca de R$ 900 mil) com vídeos que frequentemente atraem comentários de ódio. Apesar das críticas e ataques, ela reconhece que o engajamento gerado pelos detratores é sua principal fonte de lucro. Muitos não percebem que Zesu interpreta uma personagem e usa a indignação gerada como estratégia deliberada.

  • As plataformas de redes sociais, como TikTok, YouTube e X (antigo Twitter), recompensam criadores com base em engajamento, incentivando conteúdos polarizadores. Contudo, enquanto TikTok e YouTube têm regras para desmonetizar ou suspender contas que espalham desinformação, o X não possui medidas claras contra isso.

Impactos na sociedade

  • O crescimento do rage-baiting não se limita ao entretenimento; ele se infiltra também na política. Durante períodos eleitorais, como em 2024 nos EUA, postagens polarizadoras foram amplificadas para mobilizar eleitores. A estratégia contribui para um ambiente político focado no ódio, em vez de debates construtivos. Segundo estudos, apenas uma pequena fração dos usuários produz conteúdo extremista, mas os algoritmos ampliam essa percepção, fazendo parecer que tal comportamento é majoritário.

  • Além disso, o consumo excessivo de conteúdo negativo está levando muitas pessoas a se desconectarem das notícias. Ariel Hazel, professora de comunicação, alerta para o desgaste emocional causado pela constante exposição a emoções intensas, que pode criar uma apatia em relação a informações importantes.

Respostas das plataformas

  • Enquanto plataformas como Meta e TikTok reconhecem o problema e prometem conter as "iscas de ódio", outras, como o X, continuam a oferecer incentivos financeiros para criadores, mesmo quando o conteúdo é questionável. Em outubro de 2024, Elon Musk reformulou o programa de monetização do X para recompensar criadores com base no engajamento dos usuários premium, sem medidas claras contra desinformação.

O rage-baiting representa uma nova fronteira no debate sobre ética e monetização nas redes sociais. Por um lado, oferece oportunidades financeiras para criadores de conteúdo; por outro, contribui para a disseminação de ódio, desinformação e polarização. O impacto vai além do ambiente digital, moldando comportamentos e atitudes sociais.

É essencial que plataformas adotem medidas mais rígidas para desincentivar práticas prejudiciais e promovam um ambiente digital mais saudável. A experiência de Winta Zesu mostra que, embora a indignação possa ser lucrativa, o custo social e emocional do rage-baiting é alto e merece atenção urgente de todos os envolvidos: criadores, plataformas e usuários.

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