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quarta-feira, 19 de novembro de 2025 às 10:38 GMT+0

Salvar a Amazônia com o Mercado Financeiro: Sonho ou realidade possível? Proposta de Lula troca "doação por lucro"

O Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF) deixou de ser apenas uma proposta e foi lançado oficialmente em 7 de novembro de 2025, pouco antes da abertura oficial da COP 30. O mecanismo é a aposta central da diplomacia brasileira no evento que ocorre atualmente em Belém.

Diferente de modelos anteriores, o TFFF busca autossuficiência: a meta é que, em dez anos, o fundo consiga operar apenas com os rendimentos gerados pelo mercado, devolvendo o capital investido inicialmente pelos países e dispensando novos aportes governamentais.

Atualização financeira: Metas vs. Realidade

O plano original desenhado pelo governo brasileiro enfrenta um choque de realidade quanto aos valores arrecadados até o momento.

  • A meta: O objetivo é levantar US$ 25 bilhões iniciais junto a governos, servindo de garantia para captar mais US$ 100 bilhões no mercado privado, totalizando US$ 125 bilhões.
  • O arrecadado: Até agora, os compromissos somam US$ 5,5 bilhões.
  • Quem investiu: Brasil (US$ 1 bi), Indonésia (US$ 1 bi), França (US$ 577 mi), Portugal (US$ 1 bi) e Noruega (US$ 3 bi).
  • O "travão" da Noruega: A Noruega, maior investidora até agora, impôs uma condição dura: seu aporte não pode representar mais de 20% do total do fundo. Isso pressiona o Brasil a buscar mais parceiros urgentemente para "desbloquear" o dinheiro norueguês.

Resistências diplomáticas e políticas

A adesão de potências econômicas tem sido mais lenta do que o esperado.

  • A hesitação alemã: Havia grande expectativa de que a Alemanha anunciasse sua entrada. No entanto, técnicos alemães teriam classificado o modelo como "arriscado". Além disso, o chanceler alemão, Friedrich Merz, envolveu-se em polêmicas durante sua passagem por Belém, e o anúncio oficial ainda não ocorreu.
  • Orçamentos nacionais: Muitos países, incluindo Brasil e Indonésia, ainda dependem da aprovação de seus orçamentos nacionais para 2026 para efetivar o depósito do dinheiro. Garo Batmanian, do Serviço Florestal Brasileiro, aponta que essa burocracia interna dos países é um fator normal de atraso.

A mecânica de pagamentos confirmada

O funcionamento prático para os beneficiários foi detalhado:

  • Pagamento fixo: A previsão é de um repasse de US$ 4 (aprox. R$ 21) por hectare preservado ao ano.
  • Sem custo de entrada: Países com florestas tropicais não precisam investir no fundo para receber; basta aderir e comprovar a preservação via satélite.
  • Distribuição: A regra de ouro permanece: pelo menos 20% do valor deve ir para povos originários e comunidades locais. Os outros 80% ficam com os governos nacionais para políticas de preservação.

Novas críticas e o "xadrez" do clima

Embora ONGs como WWF e Greenpeace tenham elogiado a iniciativa como um "divisor de águas", surgiram críticas estruturais importantes durante a COP 30:

  • Privatização das florestas: Um grupo de mais de 100 organizações (incluindo a Rede de Trabalho Amazônica) publicou uma carta acusando o fundo de promover a "privatização financeira" da natureza, sem combater as causas reais do desmatamento (como mineração e agronegócio predatório).
  • Dúvida sobre o repasse: Há ceticismo sobre se os 80% dos recursos que ficam com os governos serão bem geridos e se os 20% chegarão de fato às bases.
  • O medo da "pedalada" climática: Negociadores de países em desenvolvimento temem que as nações ricas usem seus investimentos no TFFF (que geram lucro e retorno financeiro) para dizer que cumpriram suas obrigações do Acordo de Paris. O argumento é que "investimento com lucro" não deve contar como "ajuda climática", que deveria ser feita via doações ou financiamento facilitado.

O TFFF está na mesa e operacional, mas caminha a passos mais lentos do que a ambição brasileira projetava. O desafio agora não é mais apenas desenhar o modelo, mas convencer o capital estrangeiro de que o risco vale a pena e garantir à sociedade civil que a "lógica de mercado" não vai atropelar os direitos das comunidades que vivem na floresta. Como resume o governo, o fundo é "mais um item no menu", e não a solução única para a crise climática.

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