A morte do desejo sexual: Por que a libido está desaparecendo em 2026? O lado obscuro das clínicas de testosterona
A diminuição do desejo sexual deixou de ser um tema restrito à intimidade dos casais e se transformou em um debate público sobre saúde, envelhecimento e mercado. No Reino Unido, dados da NHS Business Services Authority mostram que as prescrições de testosterona cresceram 135% entre 2021 e 2024. Ao mesmo tempo, pesquisas como a National Survey of Sexual Attitudes and Lifestyles (Natsal) indicam que a frequência sexual vem caindo nas últimas décadas.
A libido em queda: Um fenômeno social
Estudos mostram que a frequência sexual média no Reino Unido caiu desde os anos 1990. Pesquisadores apontam que:
- Há menos casais vivendo juntos do que no passado.
- O estresse, a depressão e a solidão aumentaram.
- A hiperconectividade e o excesso de tecnologia afetam o descanso e a intimidade.
- Problemas metabólicos como obesidade e diabetes tipo 2 estão mais comuns.
Especialistas como o urologista Geoffrey Hackett defendem que parte da queda da libido pode estar ligada à redução gradual dos níveis de testosterona nos homens, fenômeno observado em diversos estudos nas últimas décadas.
Ainda assim, os pesquisadores reforçam: não existe uma única causa para a redução do desejo sexual. Trata-se de um fenômeno multifatorial.
O que é considerado testosterona baixa?
Nos homens, a testosterona começa a diminuir cerca de 1% ao ano após os 30 ou 40 anos. Porém:
- Diretrizes da Sociedade Britânica de Medicina Sexual sugerem considerar TRT para níveis abaixo de 12 nmol/L.
- Algumas diretrizes do NHS indicam deficiência mais clara abaixo de 6 a 8 nmol/L.
- Nem todo homem com testosterona baixa apresenta baixa libido.
- Nem toda baixa libido é causada por testosterona baixa.
Nas mulheres, a situação é ainda mais complexa:
- A testosterona também é produzida em pequenas quantidades.
- Pode ser prescrita para transtorno do desejo sexual hipoativo.
- Não há formulações oficialmente licenciadas específicas para mulheres no NHS.
- O uso costuma ser feito “fora da bula”.
Relatos de quem usou: Transformação ou excesso?
Alguns pacientes relatam efeitos marcantes:
- Aumento da energia.
- Melhora do humor.
- Retorno do desejo sexual.
- Sensação de “voltar aos 20 anos”.
Outros, porém, relatam efeitos indesejados:
Em mulheres:
- Crescimento excessivo de pelos.
- Acne.
- Ganho de peso.
- Em casos raros, engrossamento da voz.
Em homens:
- Alterações de humor.
- Ereções prolongadas e dolorosas.
- Redução da produção de espermatozoides.
- Possível impacto na fertilidade.
Alguns pacientes também relatam aumento de irritabilidade ou libido exacerbada, levando ao abandono do tratamento.
O papel das clínicas privadas e o marketing agressivo
- Campanhas publicitárias em redes sociais, estações de metrô e pontos de ônibus promovem testes de testosterona como solução para cansaço, irritação e falta de desejo.
- A consultora em saúde sexual Paula Briggs alerta que o tratamento pode estar sendo superpromovido, transformando-se em um mercado lucrativo. Segundo ela, muitas pessoas procuram o hormônio influenciadas por relatos nas redes sociais, mas nem sempre apresentam indicação clínica real.
- Já clínicas privadas defendem que estão suprindo uma lacuna deixada pelo sistema público, oferecendo atendimento a pacientes que se sentem ignorados.
- O clínico geral Ben Davis ressalta que a baixa libido raramente tem uma única causa e que fatores emocionais, relacionais e psicológicos precisam ser avaliados antes da prescrição hormonal.
Testosterona não é “bala de prata”
Especialistas concordam em um ponto fundamental: a TRT pode ser transformadora para algumas pessoas mas não é solução mágica.
Baixa libido pode estar relacionada a:
- Problemas no relacionamento.
- Autoimagem e autoestima.
- Rotina estressante.
- Falta de sono.
- Depressão ou ansiedade.
- Mudanças naturais do envelhecimento.
Sem mudanças no estilo de vida, a testosterona isoladamente pode ter impacto limitado.
Testosterona não é milagre: O desejo exige mais que hormônio
A queda da libido é um fenômeno real e multifatorial, influenciado por aspectos biológicos, emocionais e sociais. Embora a reposição de testosterona possa ser eficaz em casos de deficiência hormonal comprovada, seu uso indiscriminado, impulsionado por promessas rápidas e marketing agressivo, levanta alertas importantes. O debate ultrapassa a medicina e envolve interesses culturais e econômicos, reforçando a necessidade de cautela. Antes de recorrer ao hormônio, é essencial investigar causas profundas, avaliar riscos e compreender que desejo sexual não depende apenas de níveis hormonais, mas de saúde integral, qualidade dos relacionamentos e equilíbrio no estilo de vida.
