Por que os jovens precisam voltar a falar e não apenas digitar? O impacto da falta de conversa na saúde cognitiva da Geração Z
A dificuldade de jovens em realizar tarefas simples, como telefonar para marcar uma consulta médica, tem chamado a atenção de especialistas em linguagem e comportamento. A psicolinguista americana Maryellen MacDonald, professora emérita da Universidade de Wisconsin-Madison e autora do livro More Than Words: How Talking Sharpens the Mind and Shapes Our World, observa que há uma mudança significativa nas habilidades de comunicação da chamada geração Z (nascidos entre 1997 e 2012).
O silêncio nas salas e o impacto na saúde emocional
MacDonald percebeu uma transformação nas salas de aula: estudantes que antes conversavam entre si passaram a permanecer em silêncio, focados nos celulares. Essa mudança reflete uma tendência mais ampla de redução das interações presenciais.
Dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) indicam queda expressiva na interação diária presencial entre jovens nas últimas décadas. Essa redução está associada a:
- Aumento da sensação de solidão
- Diminuição do número de amizades próximas
- Redução de encontros sociais e relacionamentos amorosos
- Maior ansiedade em interações presenciais
A falta de contato social frequente pode comprometer o equilíbrio emocional, aumentar níveis de estresse e dificultar o desenvolvimento de habilidades socioemocionais fundamentais.
Comunicação: Um exercício essencial para o cérebro
Falar é uma atividade cognitivamente exigente. Diferente de apenas ouvir ou consumir conteúdo digital, a produção da fala envolve organização de ideias, memória, atenção e regulação emocional.
Segundo MacDonald, os benefícios da conversação incluem:
- Melhora da atenção e da memória
- Maior clareza no processamento de emoções
- Aprendizado mais rápido e duradouro
- Aumento do foco ao verbalizar objetivos
- Proteção cognitiva ao longo da vida
Estudos apontam que pessoas que mantêm interações sociais frequentes apresentam melhor desempenho cognitivo e maior resistência ao declínio mental associado ao envelhecimento.
Ansiedade social e evitação de tarefas simples
Muitos jovens relatam ansiedade ao realizar atividades antes consideradas comuns, como:
- Telefonar para marcar consultas
- Resolver problemas com serviços
- Falar com professores ou superiores
- Fazer apresentações
A substituição de conversas por mensagens de texto pode reduzir o desconforto momentâneo, mas limita o treino de habilidades sociais essenciais. No ambiente profissional, essa dificuldade pode comprometer desempenho, comunicação com colegas e desenvolvimento de carreira.
Fatores que contribuem para o problema
Diversos elementos parecem influenciar essa mudança:
1. Uso intenso de smartphones
- O celular oferece estímulo constante e exige menos esforço cognitivo do que uma conversa presencial.
2. Impactos da pandemia
- O isolamento durante a adolescência reduziu oportunidades cruciais de socialização.
3. Redução de hábitos de leitura
- Ler contribui para ampliar vocabulário, organizar pensamento e melhorar a escrita. Menos leitura pode significar menor habilidade de expressão.
4. Superproteção parental
- Quando pais assumem tarefas que os filhos já seriam capazes de realizar, como agendar consultas, acabam reduzindo oportunidades de aprendizado e fortalecimento emocional.
A importância da “dificuldade desejável”
MacDonald defende que falar é uma “dificuldade desejável”. Assim como aprender um instrumento ou praticar um esporte, a comunicação exige treino. Enfrentar pequenas situações desconfortáveis fortalece:
- Autoconfiança
- Autonomia
- Regulação emocional
- Resiliência
Permitir que adolescentes realizem tarefas levemente desafiadoras, como resolver um problema por telefone, contribui para o amadurecimento emocional e cognitivo.
Estratégias para fortalecer a saúde comunicativa
Pais, educadores e jovens podem adotar medidas práticas:
- Incentivar conversas presenciais diárias
- Limitar o uso de celulares em ambientes coletivos
- Estimular leitura regular
- Participar de atividades como teatro, debate e oratória
- Criar oportunidades reais de interação social
O desenvolvimento dessas habilidades não depende apenas de treino formal, mas de oportunidades cotidianas de diálogo.
Comunicação é saúde: O desafio que protege o futuro
A dificuldade crescente dos jovens em realizar interações simples não deve ser vista apenas como uma mudança cultural, mas como um alerta para a saúde mental e cognitiva das próximas gerações. Falar, dialogar e enfrentar pequenas situações desconfortáveis são exercícios que fortalecem o cérebro, desenvolvem autonomia emocional e constroem vínculos essenciais para o bem-estar ao longo da vida. Ao incentivar a prática da comunicação mesmo quando ela gera ansiedade inicial, pais, educadores e a própria sociedade estarão investindo não apenas em melhores habilidades sociais, mas em uma geração mais resiliente, cognitivamente ativa e emocionalmente saudável.
