Metamorfose do voto: De berço do PT a reduto Bolsonarista - O que mudou no Sul do Brasil?
Em fevereiro de 2026, olhar para o mapa político do Sul do Brasil revela uma realidade consolidada, mas que desafia sua própria história. O que antes era a vitrine do Partido dos Trabalhadores (PT) simbolizada pelo pioneirismo do Orçamento Participativo e pelo nascimento do Fórum Social Mundial em Porto Alegre, transformou-se em uma fortaleza do bolsonarismo.
O Sul como berço da esquerda brasileira
Para entender a guinada à direita, é preciso lembrar que o Sul foi, por quase um século, um laboratório de ideais progressistas e libertários:
- Utopias e anarquismo: No século 19, a região abrigou as primeiras colônias socialistas do país, como a Colônia Cecília (PR) e a do Saí (SC).
- A força do trabalhismo: O Rio Grande do Sul foi o berço de figuras como Getúlio Vargas, João Goulart e Leonel Brizola. O "trabalhismo" gaúcho focava na colaboração entre patrões e empregados e na justiça social.
- O auge do PT: Entre o final dos anos 1980 e o início dos anos 2000, Porto Alegre era referência mundial em democracia direta. Em 2002, Lula venceu com folga nos três estados da região (RS, SC e PR).
Fatores da metamorfose: Por que o pêndulo virou?
Especialistas apontam que a mudança foi motivada por uma combinação de fatores econômicos, demográficos e morais.
1. O deslocamento social do voto
- A partir de 2006, o perfil do eleitor petista mudou. O partido, que antes dependia da classe média urbana e de operários sindicalizados do Sul e Sudeste, passou a ter sua base principal no Nordeste, impulsionado por programas de transferência de renda. No Sul, a classe média e os setores produtivos começaram a se afastar do partido, movimento acelerado pelas denúncias de corrupção.
2. A sistematização do antipetismo
- Diferente de outras regiões, o sentimento anti-PT no Sul ganhou contornos intelectuais. Acadêmicos e formadores de opinião locais ajudaram a fundamentar críticas severas ao modelo petista, tratando-o como um projeto "autoritário". Esse "antipetismo intelectualizado" preparou o terreno para o discurso disruptivo que viria anos depois.
3. A crise econômica e o modelo de industrialização
- O Rio Grande do Sul, especificamente, enfrentou décadas de declínio econômico. A industrialização local, outrora pujante e mais igualitária que a do Sudeste, perdeu força. Esse cenário de estagnação gerou um eleitorado mais propenso a discursos de ordem e renovação radical do sistema político.
4. A ascensão do conservadorismo religioso
- A influência crescente de correntes neopentecostais e a presença histórica do luteranismo tradicional em Santa Catarina e no Paraná criaram um ambiente fértil para a pauta de costumes defendida por Jair Bolsonaro.
O cenário atual: Disputas internas e sucessão
Em 2026, o bolsonarismo no Sul não é apenas um movimento contra a esquerda, mas um campo de batalha interno.
- Em Santa Catarina, a disputa por cadeiras no Senado em 2026 exemplifica isso: nomes como Carlos Bolsonaro e a deputada Carolina de Toni (apoiada por Michelle Bolsonaro) ilustram como o estado se tornou o "quartel-general" da família.
- Ao mesmo tempo, governadores como Ratinho Jr. (PR) e Eduardo Leite (RS) buscam caminhos alternativos. Eles tentam equilibrar a herança da direita com uma gestão mais institucional, posicionando-se como opções à polarização nacional entre o PT e o núcleo duro do PL.
Um pêndulo em constante movimento
- A transformação do Sul não é um fenômeno isolado, mas reflete metamorfoses vistas em outras democracias mundiais, onde antigos redutos operários migraram para a direita radical devido à desindustrialização e ao desgaste político.
O ressentimento por promessas não cumpridas e a sensação de "traição" mencionada por analistas explicam por que o eleitor sulista, que um dia marchou com Lula sob o sol de Porto Alegre, hoje vê na direita a defesa de seus valores e de sua economia. O desafio para o futuro é entender se essa "fortaleza" é permanente ou se o pêndulo político ainda tem fôlego para novas oscilações.
