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quarta-feira, 27 de maio de 2026 às 11:08 GMT+0

Atlas da violência 2026: São Paulo tem a menor taxa de homicídios do Brasil, mas lidera em “mortes ocultas”

O Atlas da Violência 2026, realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), trouxe uma revelação importante sobre o cenário criminal brasileiro. Embora São Paulo ostente a menor taxa oficial de homicídios do país, o estado lidera um ranking preocupante de mortes violentas com causas não esclarecidas. Este fenômeno, denominado por pesquisadores como "homicídios ocultos", sugere que a realidade estatística pode estar mascarando a verdadeira dimensão da violência no estado mais rico da federação.

O que são os homicídios ocultos

  • A metodologia utilizada pelo Ipea emprega inteligência artificial para identificar óbitos registrados como "Mortes Violentas por Causa Indeterminada" (MVCI) que, na verdade, apresentam características típicas de assassinatos. O modelo analisa variáveis como perfil da vítima (idade, sexo, escolaridade) e circunstâncias do óbito (instrumento utilizado, local, data) para calcular a probabilidade real de que aquele registro seja, de fato, um crime de homicídio. Essa estratégia é vital para preencher lacunas deixadas por falhas na comunicação entre órgãos de segurança pública e serviços de medicina legal, que frequentemente não conseguem determinar a natureza exata de uma morte violenta.

São Paulo: Entre o topo do ranking e a inconsistência de dados

  • São Paulo consolidou-se como o estado com a menor taxa oficial de assassinatos: 6,6 para cada 100 mil habitantes em 2024. Contudo, quando se contabilizam os homicídios ocultos, essa taxa praticamente dobra, saltando para 12,8. Com esse ajuste, o estado cai da primeira para a terceira posição no ranking nacional de segurança, ficando atrás de Santa Catarina e do Distrito Federal.
  • O estado é o campeão nacional de mortes por causas indeterminadas, concentrando cerca de 34% do total registrado no país em 2024. Pesquisadores questionam como um estado com a capacidade técnica de São Paulo mantém, há anos, um volume tão elevado de mortes sem uma classificação precisa, alertando que o diagnóstico impreciso dificulta a implementação de políticas públicas de segurança eficientes.

O contraste estatístico e a resposta oficial

  • Enquanto especialistas argumentam que a imprecisão dos dados gera um "termômetro quebrado" para a gestão da segurança, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo defende que os dados do estado seguem critérios jurídicos e criminológicos, enquanto os do levantamento baseiam-se em critérios sanitários, tornando a comparação entre eles inadequada. A pasta ressalta que a redução progressiva dos crimes contra a vida nas últimas duas décadas é reflexo de investimentos em inteligência, procedimentos policiais e sistemas de monitoramento, como o programa SPVida.

O contexto nacional e o alerta dos especialistas

  • O Brasil registrou em 2024 seu menor patamar de homicídios formais na série histórica. Entretanto, o crescimento crítico das mortes violentas de causa indeterminada em nível nacional um aumento de 88,6% em relação ao ano anterior liga um sinal de alerta. Especialistas reforçam que a melhora nos indicadores de violência deve ser analisada com cautela, pois a piora na qualidade da informação oficial pode estar criando um "ponto cego" estatístico que mascara a dinâmica criminal e compromete a transparência e a eficácia das ações do Estado.

O debate provocado pelo Atlas da Violência revela que a queda nos índices oficiais de homicídios não conta a história completa. A persistência de um alto volume de mortes com causas indeterminadas não apenas distorce o cenário da criminalidade em São Paulo, mas também impede uma compreensão nítida da violência em nível nacional. A necessidade de aprimorar a qualidade dos dados e a investigação técnica torna-se, portanto, um passo fundamental para garantir políticas de segurança pública mais precisas, transparentes e eficazes para toda a população.

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