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terça-feira, 10 de fevereiro de 2026 às 11:48 GMT+0

Liberdade ou Abandono? Enquanto os pais dormem - Como a internet na madrugada expõe jovens à mais violência e ao crime

A segurança digital de crianças e adolescentes deixou de ser um debate sobre tecnologia, telas ou modismos geracionais. Hoje, trata-se de uma questão direta de saúde pública, segurança familiar e responsabilidade social. O alerta feito pela delegada Lisandrea Salvariego, do Núcleo de Observação e Análise Digital (Noad) da Polícia Civil de São Paulo, escancara uma realidade desconfortável: enquanto a casa dorme, o mundo digital permanece acordado e nem sempre com boas intenções.

Vivemos em uma era em que o perigo não precisa mais atravessar a rua. Ele entra silenciosamente pela tela, no quarto, na madrugada, sem pedir permissão.

O ecossistema invisível das madrugadas digitais

As investigações conduzidas pelo Noad, inicialmente motivadas pelos ataques a escolas em 2023, revelaram algo muito maior do que casos isolados. Existe um ecossistema digital estruturado, ativo sobretudo à noite, que se alimenta da vulnerabilidade emocional de crianças e adolescentes.

Não se trata apenas de “conteúdos impróprios”, mas de ambientes organizados que operam com regras próprias:

  • Hierarquias da violência: Jovens são incentivados a participar de desafios extremos para conquistar reconhecimento dentro de grupos fechados. Quanto maior a violência, maior o prestígio.
  • O sofrimento como recompensa: Dor, humilhação e autolesão se tornam moedas simbólicas de pertencimento.
  • A madrugada como zona de risco: O cansaço, o isolamento e a ausência de adultos tornam esse período o mais propício à manipulação psicológica, ao discurso de ódio e à radicalização.

É nesse silêncio noturno que muitos pais acreditam que seus filhos estão apenas “descansando”.

Liberdade x Limites: O grande mal-entendido da autonomia digital

Um dos equívocos mais perigosos da sociedade atual é confundir liberdade com ausência de limites. No ambiente digital, esse erro pode custar caro.

Liberdade não é abandono. Privacidade não é invisibilidade. E autonomia não nasce pronta.

  • O cérebro de crianças e adolescentes ainda está em formação: A capacidade de avaliar riscos, resistir à pressão de grupo e compreender consequências de longo prazo simplesmente não está totalmente desenvolvida. Ignorar isso é ignorar a ciência.
  • Limite não é punição, é proteção: Restringir o uso do celular durante a noite não é autoritarismo é uma medida preventiva, comparável a colocar cinto de segurança ou trancar a porta de casa.
  • Autonomia precisa ser gradual: Dar acesso irrestrito ao mundo digital a uma criança é o equivalente a deixá-la sozinha, de madrugada, em uma cidade desconhecida.
  • Educar é explicar, não apenas proibir: O limite eficaz vem acompanhado de diálogo. O jovem precisa entender que o controle existe porque o ambiente mudou e se tornou mais complexo, mais agressivo e mais predatório.

O mundo mudou e fingir que não mudou também é um risco

Muitos pais foram criados em um mundo onde o perigo era físico, visível e localizado. Hoje, ele é algorítmico, persistente e invisível. Insistir em educar com as referências do passado é deixar os filhos desarmados no presente.

Proteger não é vigiar obsessivamente, mas acompanhar ativamente.

  • Atenção aos sinais: Mudanças bruscas de humor, isolamento, alteração no sono ou ansiedade excessiva são alertas, não “fase”.
  • Diálogo sem medo: O jovem precisa sentir que pode falar sobre o que vê e vive online sem ser automaticamente punido.
  • Desconexão como cuidado: Criar momentos familiares longe das telas, especialmente à noite, ajuda a reduzir a dependência digital e fortalece vínculos reais algo que o mundo virtual não substitui.

Reconciliando o mundo real com o digital

Proteger crianças e adolescentes hoje exige entender que o mundo mudou. E acompanhar essa mudança não é opção: é dever. Liberdade verdadeira só existe quando há limites, presença e cuidado. Sem isso, o preço não é apenas individual é social.

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