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terça-feira, 9 de dezembro de 2025 às 10:04 GMT+0

Imposto oculto do crime: Como a ilegalidade drena R$ 1,5 tri da economia brasileira

O crime organizado e a ilegalidade representam um "imposto oculto" que sobrecarrega a economia brasileira, com prejuízos estimados em até R$ 1,5 trilhão anualmente. Este custo equivale a 12% a 14% do Produto Interno Bruto (PIB) do país, rivalizando com a economia de nações inteiras.
O resumo a seguir, originalmente de Robert Muggah, Richard von Weizsäcker Fellow na Bosch Academy e co-fundador do Instituto Igarapé, detalha como essa macroeconomia paralela afeta as finanças públicas, a segurança e o desenvolvimento nacional.

A macroeconomia invisível do crime

O impacto da ilegalidade vai muito além dos gastos visíveis com segurança. Ele se manifesta em duas dimensões financeiras:

  • Custos visíveis: Despesas diretas com policiamento, sistema judicial, segurança privada e seguros.
  • Custos invisíveis (Social e Produtivo): Perda de vidas, queda de produtividade, erosão da confiança e investimentos que deixam de ser realizados devido à insegurança.

Estimativas chave do prejuízo:

  • Pesquisas anteriores do BID e do Ipea sugeriram que o custo da violência e do crime consumia entre 3,4% e 5,9% do PIB.
  • Estimativas mais recentes, contabilizando perdas indiretas, apontam que o crime pode estar reduzindo o PIB anual em cerca de 11%, o que supera R$ 1 trilhão em valores atuais.

A vasta economia subterrânea e a evasão fiscal

Uma parcela significativa da economia brasileira opera nas sombras, fornecendo o ambiente ideal para a ilegalidade:

  • Informalidade e cobertura: A economia subterrânea representou cerca de 17,8% do PIB em 2022 (aproximadamente R$ 1,7 trilhão). Embora nem toda atividade informal seja criminosa, essa vasta circulação de dinheiro em espécie facilita o contrabando, a fraude fiscal e a lavagem de dinheiro, dificultando a fiscalização.
  • Contrabando e pirataria: O comércio ilícito custou ao Brasil cerca de R$ 468 bilhões em 2024, sendo R$ 140 bilhões em impostos não arrecadados e R$ 328 bilhões em vendas perdidas para empresas legítimas.

Impacto no comércio e na logística

O roubo e a fraude impõem uma sobretaxa oculta que se reflete no preço final dos produtos:

  • Roubo de cargas: Em 2024, foram registrados 10.478 roubos de carga, com perdas de R$ 1,2 bilhão.
  • Fraudes no combustível: Somados aos roubos de cargas, o custo anual com roubos e fraudes no setor de combustíveis pode atingir R$ 29 bilhões.
  • Custos de proteção: As empresas são forçadas a investir em rastreadores, escoltas blindadas e mudanças de rota, repassando esses custos para o consumidor.

A nova fronteira do crime ambiental

A ilegalidade nas florestas e rios não causa apenas danos ecológicos, mas também prejuízos econômicos bilionários:

  • Ouro ilegal: Quase metade da produção de ouro do Brasil entre 2015 e 2020 (229 toneladas) tinha indícios de ilegalidade, valendo dezenas de bilhões de dólares. Além de privar o tesouro de impostos, atua como veículo para a lavagem de dinheiro.
  • Desmatamento e perda de energia: A ilegalidade no desmatamento é quase total (99,8% dos alertas de desmatamento em 2020 apresentavam sinais de ilegalidade).
  • Perdas de geração de energia: O desmatamento afeta os "rios voadores", resultando na perda de cerca de 3.700 a 3.800 gigawatts-hora de geração potencial em Itaipu e Belo Monte, o que se traduz em mais de R$ 1 bilhão em receita perdida anualmente.
  • Prejuízos na agricultura: Perdas relacionadas à seca na agricultura dependente de chuvas atingiram cerca de R$ 186 bilhões entre 2013 e 2022.
  • Serviços ecossistêmicos: Manter a Amazônia em pé gera pelo menos US$ 317 bilhões por ano em benefícios (cerca de R$ 1,5 trilhão), tornando o desmatamento ilegal uma gigantesca transferência de riqueza pública para mãos privadas.

O combate ao crime como imperativo macroeconômico

O custo total da ilegalidade oscilando entre R$ 1,3 trilhão e R$ 1,5 trilhão anualmente reforça a necessidade de tratar o crime como uma distorção macroeconômica.

  • Impacto regressivo: Este imposto oculto penaliza desproporcionalmente os mais pobres, que são mais expostos à violência e menos capazes de absorver a inflação e a instabilidade.

Foco na ilegalidade financeira:

O governo federal tem intensificado as ações para combater o crime organizado que opera dentro da economia formal:

  • Projetos de lei para aprimorar o tratamento dos "devedores contumazes" (empresas que usam a evasão fiscal como modelo de negócio).
  • Criação de um núcleo permanente para combater o crime organizado no Ministério da Justiça, unindo autoridades fiscais, Polícia Federal e promotores.
  • Negociação de cooperação com os EUA para compartilhamento de informações sobre lavagem de dinheiro e fraude fiscal.

Operações recentes como a Carbono Oculto (combate a uma rede que lavou R$ 52 bilhões em transações de combustíveis adulterados) e ações contra devedores contumazes (com dívidas fiscais superiores a R$ 26 bilhões) demonstram a nova abordagem coordenada, focada em desmantelar as complexas estruturas financeiras que protegem o crime de alto escalão.

A conclusão é inegável: No Brasil, a legalidade é mais barata do que o crime.

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