Vinhos, queijos e carros mais baratos? Como o acordo Mercosul-União Europeia 2026 impacta seu bolso
A aprovação do acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul, ocorrida em 9 de janeiro de 2026, representa um dos marcos mais significativos da diplomacia econômica global nas últimas décadas. Após um impasse que se arrastou por 25 anos, o sinal verde dado pelos embaixadores em Bruxelas abre caminho para a integração de dois blocos que, somados, representam um mercado de 718 milhões de pessoas e um PIB de aproximadamente 22,4 trilhões de dólares.
O equilíbrio de forças: Quem apoiou e quem resistiu
A aprovação foi obtida por meio de uma maioria qualificada, uma regra que exige o aval de pelo menos 15 dos 27 Estados-membros, representando 65% da população da União Europeia. Esse mecanismo foi fundamental para superar a forte resistência de um bloco minoritário liderado pela França.
- Os defensores: A Alemanha, sob a liderança do chanceler Friedrich Merz, e a Espanha, de Pedro Sánchez, foram os principais motores da aprovação. Para Merz, o acordo é um sinal de "soberania estratégica", fortalecendo a Europa em um cenário global incerto.
- A oposição: França, Polônia, Irlanda, Áustria e Hungria votaram contra, citando preocupações com o impacto em seus setores agrícolas. A Bélgica se absteve. Para esses países, a entrada de produtos sul-americanos é vista como uma ameaça aos produtores locais.
O impacto econômico: O que muda no comércio
O acordo prevê uma transformação profunda nas trocas comerciais. A expectativa é que as exportações da União Europeia para o Mercosul cresçam cerca de 50 bilhões de euros até 2040, enquanto o Mercosul pode ver um incremento de 9 bilhões de euros em suas vendas para o bloco europeu.
- Setor agropecuário: Serão eliminadas tarifas para 77% dos produtos que a UE compra do Mercosul, como carnes, grãos e café. No entanto, haverá limites: a carne bovina terá uma cota de 99 mil toneladas anuais com tarifas reduzidas para evitar o desabastecimento ou a quebra de preços na Europa.
- Setor industrial: A União Europeia se comprometeu a zerar as tarifas para produtos industriais em até dez anos, sendo que 80% dessa liberalização deve ocorrer já no início da vigência do acordo.
- Consumo interno no Brasil: Para o consumidor brasileiro, o acordo pode resultar no barateamento de produtos europeus de alta qualidade, como vinhos, azeites, queijos e veículos, à medida que os impostos de importação forem gradualmente reduzidos.
A geopolítica da "autonomia estratégica"
- Para o governo brasileiro e seus parceiros de bloco, a conclusão do acordo é vista como uma vitória do multilateralismo. Em um momento de tensões comerciais globais e instabilidade nas relações com os Estados Unidos, o pacto com a Europa oferece uma alternativa sólida para reduzir a dependência de um único mercado.
- O governo Lula e seus pares entendem que o fortalecimento desse eixo transatlântico é uma resposta estratégica à "era Trump", garantindo que a América do Sul e a Europa mantenham laços comerciais fortes e independentes das oscilações políticas norte-americanas.
O cronograma para 2026 e os desafios finais
Embora a aprovação na UE tenha sido um passo histórico, o processo ainda não está concluído. Há um calendário de eventos e ratificações que determinará quando o acordo começará a valer na prática.
- Assinatura formal: Está prevista para o dia 17 de janeiro de 2026, no Paraguai, com a presença de Ursula von der Leyen e os líderes do Mercosul.
- Parlamento Europeu: O texto precisará ser ratificado pelos deputados eleitos da UE. A França já prometeu travar uma "batalha" nesta etapa para tentar derrubar o texto.
- Parlamentos nacionais: A parte comercial do acordo pode entrar em vigor de forma antecipada assim que aprovada pelas instituições de Bruxelas. No entanto, a ratificação total exigirá o voto favorável de todos os 27 parlamentos nacionais da Europa, o que ainda gera debates jurídicos sobre possíveis bloqueios localizados.
- Congresso Brasileiro: No Brasil, o texto também precisará passar pelo crivo dos parlamentares. O vice-presidente Geraldo Alckmin projeta que todas essas etapas sejam concluídas ainda em 2026.
A aprovação do acordo Mercosul-União Europeia marca o fim de um ciclo de incertezas e o início de uma nova era de integração econômica. Apesar das resistências internas na Europa e dos desafios burocráticos que virão nos próximos meses, o peso político de Alemanha e Espanha, somado à necessidade estratégica do Mercosul, parece ter finalmente inclinado a balança a favor do livre comércio. Se o cronograma for cumprido, 2026 será o ano em que uma das maiores áreas de livre comércio do planeta deixará de ser um projeto para se tornar realidade.
