A guerra civil secreta: Como a "Shindo Renmei" e o fanatismo dividiram a colônia japonesa no Brasil pós-1945
Em** 2 de setembro de 1945**, o mundo assistiu à cerimônia formal de rendição do Japão a bordo do navio norte-americano USS Missouri. A imagem do ministro das Relações Exteriores japonês, Mamoru Shigemitsu, assinando o documento sob o olhar austero do General Douglas MacArthur, simbolizava o fim do conflito no Pacífico. No entanto, para milhares de quilômetros de distância, no Brasil, a guerra estava longe de terminar. A notícia da derrota não foi aceita por uma grande parcela da comunidade de imigrantes japoneses, desencadeando um dos capítulos mais dramáticos e violentos da história da imigração no país. Este resumo explica as causas e as consequências dessa profunda divisão, que colocou irmãos contra irmãos em solo brasileiro.
O cenário pré-guerra: A imigração e o "perigo amarelo"
Para entender a divisão, é crucial voltar ao início do século XX.
- A chegada dos pioneiros: Entre 1908 e 1941, o Brasil recebeu cerca de 190 mil imigrantes japoneses, que vinham principalmente para trabalhar nas lavouras de café. Muitos nutriam o sonho do "enriquecimento temporário", planejando voltar para o Japão após fazer fortuna.
- O isolamento e o fortalecimento da identidade: Esses imigrantes mantinham um profundo apego à pátria-mãe e, frequentemente, viviam em comunidades fechadas, com suas próprias escolas, jornais e associações, o que limitava sua integração à sociedade brasileira.
- O preconceito estrutural: A comunidade enfrentava um forte preconceito, sintetizado no termo "Perigo Amarelo". Ideias eugenistas, que pregavam a superioridade da "raça branca", eram comuns entre as elites brasileiras. Um exemplo marcante foi o discurso do presidente da Academia Nacional de Medicina, Miguel Couto, que em 1923 defendeu a proibição da imigração asiática, referindo-se a ela como a entrada de "moléculas perniciosas".
A pressão do Estado Novo e a entrada do Brasil na guerra
Os anos 1930 e 1940 agravaram dramaticamente a situação dos nipo-brasileiros.
- A campanha de nacionalização: Com a ascensão do Estado Novo de Getúlio Vargas, iniciou-se uma política agressiva de nacionalização. O uso de idiomas estrangeiros em público, incluindo o japonês, foi proibido. Jornais, rádios e escolas étnicas foram fechados, cortando um elo vital com a cultura de origem e isolando ainda mais a comunidade.
- O Brasil declara guerra ao eixo: Em 1942, o Brasil alinhou-se aos Aliados e declarou guerra às potências do Eixo, incluindo o Japão. O sentimento antinipônico na população geral cresceu. Os imigrantes japoneses e seus descendentes foram vistos como potenciais espiões ou sabotadores (a chamada "quinta-coluna").
- Campos de concentração no Brasil: Por pressão dos Estados Unidos, o governo brasileiro criou campos de internamento para "súditos do Eixo". A população japonesa de Santos, por exemplo, foi removida à força e confinada em propriedades no interior, como sítios em Paranaguá. Era um "limbo", nas palavras da historiadora Priscila Perazzo, onde civis eram presos sem acusação formal.
O divergente fim da guerra: Kachigumi vs. Makegumi
Quando a notícia da rendição japonesa finalmente chegou ao Brasil, ela foi recebida com incredulidade.
- Os Kachigumi (Grupo da Vitória): A grande maioria, estimada em cerca de 80% da colônia, recusou-se a acreditar na derrota. Para eles, era impensável que o Imperador, considerado divino, tivesse capitulado. Eles acreditavam que as notícias eram propaganda aliada. Este grupo encontrou abrigo ideológico em sociedades secretas.
- Os Makegumi (Grupo da Derrota): Uma minoria, mais integrada ou com acesso a outras fontes de informação, aceitou a realidade da rendição. Eles eram vistos como traidores pelos kachigumi.
- O papel da Shindo Renmei: A "Liga do Caminho dos Súditos" emergiu como a principal organização kachigumi. Ela não apenas pregava a vitória japonesa, mas também usava de intimidação, violência e até assassinatos para calar os makegumi. A Shindo Renmei produzia falsos boletins de notícias e até falsificou uma "edição especial" de um jornal japonês anunciando a vitória para sustentar sua narrativa.
O ápice da crise: Violência e a reação do Estado
O conflito interno saiu do controle.
- O incidente de Tupã (1946): A prisão e os maus-tratos a sete imigrantes que cultuavam a bandeira japonesa em Tupã (SP) expuseram publicamente a crença na vitória e levou às investigações que desmantelaram a Shindo Renmei.
- A reunião dos Campos Elíseos: Em 1946, numa tentativa de pacificação, o interventor de São Paulo, Macedo Soares, reuniu a comunidade para confirmar a rendição. O plano falhou spectacularmente quando os presentes, incluindo uma mulher chamada Sachiko, recusaram-se publicamente a aceitar a derrota, humilhando as autoridades.
- A grande repressão: A investigação sobre a Shindo Renmei tornou-se a maior do gênero no país. Cerca de 2.000 pessoas foram presas, 30 foram indiciadas e 180 enviadas para a prisão na Ilha de Anchieta. A violência da Shindo Renmei e a repressão estatal marcaram profundamente a comunidade.
Importâncias e relevâncias deste capítulo histórico:
- Ilustra o impacto de conflitos globais nas diásporas: Mostra como eventos ocorridos do outro lado do mundo podem ter consequências profundas e imprevistas em comunidades de imigrantes.
- Expõe as consequências do nacionalismo extremado: O choque entre o nacionalismo japonês (cultivado em isolamento) e o nacionalismo brasileiro (de caráter assimilacionista e repressivo) criou um terreno fértil para o conflito.
- Evidencia a persistência do racismo estrutural: A história do "perigo amarelo" e a tentativa de emenda constitucional em 1946 para barrar imigrantes japoneses são exemplos claros do preconceito racial institucionalizado no Brasil.
- Força uma reavaliação da identidade: A impossibilidade de retorno a um Japão arrasado pela guerra forçou a comunidade a se enraizar definitivamente no Brasil, iniciando um complexo e por vezes doloroso processo de reformulação de sua identidade.
- Tem eco no presente: Episódios de racismo antiasiático durante a pandemia de Covid-19 e o questionamento do estereótipo da "minoria modelo" mostram que as questões de identidade e pertencimento permanecem relevantes.
Feridas que cicatrizam, lições que permanecem
A divisão na colônia japonesa no pós-guerra foi um trauma coletivo. Ela foi resultado de uma combinação explosiva: a lealdade inabalável ao Império Japonês, o isolamento imposto pelas políticas de nacionalização e o profundo preconceito da sociedade brasileira. Episódios posteriores, como o "Pelotão de Voluntários das Cerejeiras" na década de 1950, que prometia repatriamento através de um serviço militar fictício na Guerra da Coreia, mostram que a ferida demorou a fechar. Aos poucos, com o restabelecimento das relações diplomáticas em 1952 e as comemorações do centenário da imigração em 1958, uma nova narrativa de integração e contribuição positiva foi sendo construída. No entanto, esta história serve como um lembrete poderoso dos perigos do isolamento, do fanatismo e da intolerância, lessons que permanecem vitais para compreender não apenas o passado, mas também as dinâmicas sociais do presente.
