Feminicídio, machismo estrutural e violência vicária: Por que a sociedade ainda culpa a "mãe"?
Este é um tema brutal, mas que precisa ser discutido com a máxima clareza para que possamos identificar os sinais antes que o pior aconteça. O conteúdo não é apenas um relato, mas um manifesto sobre a urgência de entender a violência vicária.
Violência vicária: O ódio à mulher transmutado em infanticídio
- A frase era uma promessa:
“Seu futuro será de tristeza e solidão”.Proferida em uma manhã de julho de 2023 pelo ex-marido da delegada Amanda Souza, a ameaça levou poucas horas para se tornar realidade. À tarde, veio o anúncio: os dois filhos do casal haviam sido assassinados pelo próprio pai. Este não é um crime de "desespero", mas o ápice da violência vicária, quando o agressor utiliza os filhos como instrumentos de tortura psicológica para atingir a mulher.
A anatomia do abuso: Do "zelo" ao controle total
A violência vicária não nasce do vácuo: Ela é o capítulo final de uma história de dominação que, no caso de Amanda, durou 20 anos. O padrão é insidioso:
- O controle mascarado: No início, a vigilância é vendida como "cuidado". Ligações constantes, exigência de localização e ciúme excessivo são romantizados como prova de amor.
- O gatilho da autonomia: O comportamento do agressor torna-se explícito quando a mulher conquista independência, como quando Amanda assumiu o cargo de delegada. O sucesso dela foi visto por ele como uma ameaça ao seu domínio.
- O ponto de ruptura: A decisão de terminar a relação é o momento de maior perigo. O agressor, percebendo que não pode mais controlar a mulher, decide destruir o que ela mais ama para garantir que ela nunca mais seja feliz.
O tribunal da opinião pública: A segunda violência
Um dos aspectos mais cruéis desse fenômeno é como a sociedade reage. Em casos semelhantes, como o ocorrido em Itumbiara (GO), o foco da discussão frequentemente se desvia do assassino para a conduta da mãe.
- A inversão de culpa: Em vez de condenar a brutalidade do autor, redes sociais e círculos sociais perguntam:
"O que ela fez?" ou "Houve traição?". - A romantização do agressor: O homem é frequentemente retratado como alguém
"levado ao limite", enquanto a mulher é julgada por ter rompido um ciclo abusivo. - A mensagem subjacente: A cultura machista sugere que a tragédia poderia ter sido evitada se a mulher fosse mais
"submissa" ou "compreensiva". Isso é uma mentira perversa: a responsabilidade pelo crime é exclusivamente de quem o comete.
A invisibilidade institucional
Apesar da gravidade, a violência vicária ainda enfrenta um apagão de dados no Brasil. Essa falta de visibilidade estatística gera consequências graves:
- Políticas públicas frágeis: Sem números, o Estado não cria protocolos de proteção específicos para os filhos de mulheres ameaçadas.
- Falha na rede de proteção: Profissionais de saúde e segurança muitas vezes não conseguem identificar que a ameaça contra a criança é, na verdade, uma forma de violência doméstica contra a mãe.
Como romper o ciclo: Os pilares da sobrevivência
Para quem vive sob o domínio de um abusador, a delegada Amanda Souza aponta caminhos fundamentais para a saída segura:
- Autoconhecimento crítico: Entender que ciúme não é amor e controle não é zelo. Identificar as "pequenas" violências é o primeiro passo para evitar as grandes.
- Independência financeira: Ter recursos próprios é a maior ferramenta de liberdade. A dependência econômica é uma corrente que mantém muitas mulheres em situações de risco extremo.
- Rede de apoio e proteção: Buscar ajuda jurídica e psicológica, registrar todas as ameaças e nunca subestimar a capacidade de violência de um agressor ferido em seu ego.
Canais gratuitos de ajuda e denúncia
Se você ou alguém que você conhece está em perigo ou sofrendo controle abusivo, utilize estes canais oficiais:
- Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher): Gratuito e anônimo. Oferece escuta, orientação e encaminhamento para serviços de proteção em todo o Brasil.
- Ligue 190 (Polícia Militar): Para situações de emergência ou risco imediato de violência física.
- WhatsApp da Mulher (+55 61 9610-0180): Canal direto do Governo Federal para denúncias e orientações por mensagem.
- Defensoria Pública: Oferece assistência jurídica gratuita para medidas protetivas de urgência.
- DEAM (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher): Unidades da Polícia Civil focadas exclusivamente no acolhimento e investigação de crimes de gênero.
Mudar a narrativa para salvar vidas
- A violência vicária é uma tentativa extrema de manutenção de poder. Enquanto permitirmos que a sociedade culpe a mãe pela fúria do pai, estaremos validando a lógica do agressor.
O luto de Amanda Souza e de tantas outras mães não pode ser um espetáculo de julgamento moral. É um chamado urgente para que o sistema de justiça e a sociedade reconheçam: quem mata os filhos para ferir a mãe não é uma "vítima das circunstâncias", é um carrasco.
