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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026 às 12:08 GMT+0

Feminicídio, machismo estrutural e violência vicária: Por que a sociedade ainda culpa a "mãe"?

Este é um tema brutal, mas que precisa ser discutido com a máxima clareza para que possamos identificar os sinais antes que o pior aconteça. O conteúdo não é apenas um relato, mas um manifesto sobre a urgência de entender a violência vicária.

Violência vicária: O ódio à mulher transmutado em infanticídio

  • A frase era uma promessa: “Seu futuro será de tristeza e solidão”. Proferida em uma manhã de julho de 2023 pelo ex-marido da delegada Amanda Souza, a ameaça levou poucas horas para se tornar realidade. À tarde, veio o anúncio: os dois filhos do casal haviam sido assassinados pelo próprio pai.
  • Este não é um crime de "desespero", mas o ápice da violência vicária, quando o agressor utiliza os filhos como instrumentos de tortura psicológica para atingir a mulher.

A anatomia do abuso: Do "zelo" ao controle total

A violência vicária não nasce do vácuo: Ela é o capítulo final de uma história de dominação que, no caso de Amanda, durou 20 anos. O padrão é insidioso:

  • O controle mascarado: No início, a vigilância é vendida como "cuidado". Ligações constantes, exigência de localização e ciúme excessivo são romantizados como prova de amor.
  • O gatilho da autonomia: O comportamento do agressor torna-se explícito quando a mulher conquista independência, como quando Amanda assumiu o cargo de delegada. O sucesso dela foi visto por ele como uma ameaça ao seu domínio.
  • O ponto de ruptura: A decisão de terminar a relação é o momento de maior perigo. O agressor, percebendo que não pode mais controlar a mulher, decide destruir o que ela mais ama para garantir que ela nunca mais seja feliz.

O tribunal da opinião pública: A segunda violência

Um dos aspectos mais cruéis desse fenômeno é como a sociedade reage. Em casos semelhantes, como o ocorrido em Itumbiara (GO), o foco da discussão frequentemente se desvia do assassino para a conduta da mãe.

  • A inversão de culpa: Em vez de condenar a brutalidade do autor, redes sociais e círculos sociais perguntam: "O que ela fez?" ou "Houve traição?".
  • A romantização do agressor: O homem é frequentemente retratado como alguém "levado ao limite", enquanto a mulher é julgada por ter rompido um ciclo abusivo.
  • A mensagem subjacente: A cultura machista sugere que a tragédia poderia ter sido evitada se a mulher fosse mais "submissa" ou "compreensiva". Isso é uma mentira perversa: a responsabilidade pelo crime é exclusivamente de quem o comete.

A invisibilidade institucional

Apesar da gravidade, a violência vicária ainda enfrenta um apagão de dados no Brasil. Essa falta de visibilidade estatística gera consequências graves:

  • Políticas públicas frágeis: Sem números, o Estado não cria protocolos de proteção específicos para os filhos de mulheres ameaçadas.
  • Falha na rede de proteção: Profissionais de saúde e segurança muitas vezes não conseguem identificar que a ameaça contra a criança é, na verdade, uma forma de violência doméstica contra a mãe.

Como romper o ciclo: Os pilares da sobrevivência

Para quem vive sob o domínio de um abusador, a delegada Amanda Souza aponta caminhos fundamentais para a saída segura:

  • Autoconhecimento crítico: Entender que ciúme não é amor e controle não é zelo. Identificar as "pequenas" violências é o primeiro passo para evitar as grandes.
  • Independência financeira: Ter recursos próprios é a maior ferramenta de liberdade. A dependência econômica é uma corrente que mantém muitas mulheres em situações de risco extremo.
  • Rede de apoio e proteção: Buscar ajuda jurídica e psicológica, registrar todas as ameaças e nunca subestimar a capacidade de violência de um agressor ferido em seu ego.

Canais gratuitos de ajuda e denúncia

Se você ou alguém que você conhece está em perigo ou sofrendo controle abusivo, utilize estes canais oficiais:

  • Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher): Gratuito e anônimo. Oferece escuta, orientação e encaminhamento para serviços de proteção em todo o Brasil.
  • Ligue 190 (Polícia Militar): Para situações de emergência ou risco imediato de violência física.
  • WhatsApp da Mulher (+55 61 9610-0180): Canal direto do Governo Federal para denúncias e orientações por mensagem.
  • Defensoria Pública: Oferece assistência jurídica gratuita para medidas protetivas de urgência.
  • DEAM (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher): Unidades da Polícia Civil focadas exclusivamente no acolhimento e investigação de crimes de gênero.

Mudar a narrativa para salvar vidas

  • A violência vicária é uma tentativa extrema de manutenção de poder. Enquanto permitirmos que a sociedade culpe a mãe pela fúria do pai, estaremos validando a lógica do agressor.

O luto de Amanda Souza e de tantas outras mães não pode ser um espetáculo de julgamento moral. É um chamado urgente para que o sistema de justiça e a sociedade reconheçam: quem mata os filhos para ferir a mãe não é uma "vítima das circunstâncias", é um carrasco.

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